
A máxima popular costuma dizer que: não importa o que ocorra, o sol nascerá amanhã. A ideia de continuidade da vida mesmo com adversidades, contudo, nunca me pareceu tão inquestionável assim. Tecnicamente, muitas razões físicas e astronômicas poderiam impedir o sol de brilhar no horizonte amanhã. Por isso, uma outra ideia de certeza me parece bem mais apropriada e estatisticamente infalível: eventualmente, alguém vai te magoar.
Caso um dia o sol se apague e a humanidade consiga conquistar outra galáxia para prosperar entre as estrelas, ainda assim, em algum sistema solar distante, alguém ainda te fará algum mal. Por mais que você tente, que construa muros emocionais ou que se isole em torres de prudência, não dá para se proteger de todos a todo o tempo. A convivência humana é, por natureza, um campo minado de expectativas e frustrações. Eventualmente, alguns golpes irão "furar" a defesa.
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Vivi algo assim no começo desta semana. Meio supersticioso, antes de sequer poder me zangar com o ofensor, já ponderei: "Será essa sacanagem um presságio do meu 2026?". Talvez. Não, na realidade, não tem nada a ver com o destino ou com o alinhamento dos astros. Tem a ver com a natureza do bicho homem.
As pessoas, em geral, pensam em si próprias antes de qualquer coisa — arrisco dizer que, muitas vezes, colocam o ego até à frente da própria família. É um modelo de sobrevivência, quase instintivo, herdado de tempos em que a escassez ditava as regras. Percebe-se uma oportunidade de ganhar, de brilhar ou de levar vantagem, e logo muitos já saem passando por cima de tudo e de todos. É a ética do "eu primeiro" que rege grande parte das relações modernas. Logo, não se abale tanto: se alguém te sacaneou, saiba que isso diz muito mais sobre o caráter do outro.
A "mágoa" e a "sacanagem" podem se manifestar de diversas formas, das mais sutis às mais devastadoras. Há a traição de confiança, a manipulação silenciosa, as mentiras que corroem a base de qualquer relação. No fim das contas, o que resta não é o ato em si, mas como decidimos reagir a ele. Te sacanearam. E agora?
Primeiro de tudo: não tente ser forte. Dê-se um tempo para sofrer. Vivemos em uma era de "positividade tóxica", onde o luto por uma decepção precisa ser superado em segundos para não atrapalhar a produtividade. Existe muito papo de que "homem não chora" ou que "mulher forte não se abala". Cuidado com máximas que ignoram sentimentos; elas geralmente são atalhos para doenças psicossomáticas. Pode parecer estranho, mas uma saída eficaz para se libertar de uma mágoa é simplesmente vivê-la.
Outra coisa que ajuda é a comunicação, embora essa seja a parte mais difícil e, por vezes, a mais negligenciada. Deixe claro a quem te sacaneou que você não gostou da atitude. A grande verdade é que existe uma possibilidade considerável de as pessoas sequer notarem o rastro de destruição que deixam para trás. Vivem em bolhas de autoconfiança tão densas que não percebem como feriram o próximo. Por isso, use as palavras claramente, de forma incisiva e sem rodeios.
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O terceiro passo é não se forçar a perdoar. Já tratei desse tema em outros momentos neste espaço, mas é fundamental reforçar: perdão não é algo que se arranca como uma erva daninha; é um processo que nasce da cicatrização. Se você não quiser perdoar uma sacanagem — mesmo que venha de alguém do seu círculo íntimo —, não perdoe. Não existe erro nisso. A obrigação social do perdão imediato é uma carga pesada demais para quem já está carregando o peso da decepção.
Por fim, lembre-se das voltas que o mundo dá. Pode parecer um pensamento amargo, mas, se hoje sentimos alguma mágoa, é provável que também tenhamos sido os autores de alguma sacanagem contra outrem em algum momento da estrada. Não existe ninguém perfeito, e todos nós, em algum capítulo da nossa história, fomos os vilões na narrativa de alguém.

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