
A prisão do presidente Nicolás Maduro e da sua esposa, na madrugada de sábado último, é mais um elemento que divide opiniões na sociedade brasileira, provoca polêmica no cenário político e estará presente nos embates da disputa eleitoral deste ano. Presidenciáveis trataram de marcar posição assim que saiu a notícia de que o venezuelano tinha sido tirado de casa pelas forças americanas. Antes mesmo do posicionamento oficial do Brasil, a guerra de interpretações ganhava as redes sociais.
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Para os que se identificam como de direita, a decisão de Donald Trump foi acertada e livrou os venezuelanos da ditadura bolivariana, do narcoterrorismo, da corrupção e das restrições da liberdade dos cidadãos do país vizinho. No campo da esquerda, a ofensiva foi entendida como uma afronta à soberania do país vizinho, independentemente das suspeitas que pairam sobre Maduro. Trata-se de desrespeito à legislação internacional. Hoje, os EUA decidiram atacar a Venezuela; amanhã, a mesma atitude poderá se repetir contra outro país da região cuja política desagrade ao presidente Donald Trump.
O comportamento pouco protocolar do republicano de certa forma alimenta as leituras conflitantes e a troca de acusações que surge a partir delas, mas é imprescindível que o debate interno sobre a ofensiva na Venezuela — que precisa ser feito — não se limite à lógica rasa do "nós contra eles" e, ainda, acabe por comprometer o tratamento esperado para outros temas considerados essenciais para a população.
Um deles é conter o aumento da violência, praticada tanto pelos grupos organizados, com tentáculos que cada vez mais extrapolam as fronteiras, quanto por agressores domésticos, que têm como alvo, principalmente, as mulheres e os negros. A crise ambiental, a redução das desigualdades, os deficits públicos crescentes e os desafios do envelhecimento populacional também deveriam estar entre as prioridades.
Na avaliação de Manuel Furriela, professor de relações internacionais e reitor da Universidade Católica de Brasília (UCB), a crise venezuelana não deve afetar diretamente as eleições brasileiras, mas é esperado que Donald Trump apoie o candidato mais favorável aos ideais norte-americanos. "Um envolvimento direto é impossibilidade jurídica e técnica, mas apoio a correntes de interesse norte-americano, acredito que é natural. Não vejo problema nisso. O próprio Brasil faz isso", disse ao Correio.
O que faz mais sentido para Washington, segundo o especialista, não é deflagrar uma ofensiva de intervenções territoriais pela região, mas buscar governos aliados locais. Em caso de um chefe de Estado com posição ideológica diferente, espera-se "uma relação produtiva entre os dois". Candidatos a ocupar o Palácio do Planalto a partir de 2027, portanto, devem ter em mente que, para além de disputas ideológicas, há em curso uma agenda de pautas que interessam tanto ao Brasil quanto aos Estados Unidos e que desrespeitá-la não é um bom negócio para ambas as partes.
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