
O que Kleber Mendonça Filho e Dom Helder Câmara têm em comum? Muito provavelmente nada, você poderá dizer. Mas, para mim, eles são Pernambuco, e isso é muita coisa. Afinal, Pernambuco é superlativo absoluto, e nem me venham dizer que é exagero. Minha cidadania (honorária, digo com orgulho) brasiliense não subscreve o estado natal na certidão de nascimento e nem nas minhas memórias afetivas.
Estava eu já pensando em falar sobre o filme O agente secreto — do qual já falei e ainda vou falar mais, já adianto — para convocar a nossa torcida gigante e festiva para trazermos os prêmios de Melhor Filme em Língua Não Inglesa, Melhor Filme Drama e Melhor Ator Drama para Wagner Moura, protagonista do filme, no Globo de Ouro, um dos mais importantes festivais cinematográficos do mundo. A trajetória do filme já supera expectativas. Candidato a Melhor Filme Estrangeiro do Oscar e pré-candidato ao Bafta, o Oscar inglês, além de prêmios já conquistados, o longa é um estouro.
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Mérito supremo do diretor Kleber Mendonça Filho, que nasceu no Recife e transformou sua cidade natal em cenário dos seus extraordinários filmes. O som ao redor, Aquarius e o recente Retratos fantasmas, que conta a história dos cinemas de rua do Recife e me emocionou profundamente, são histórias, mas são também Recife. Por meio do talento precioso, reconhecido e premiado, Kleber consegue me puxar para um funil armorial (uso a palavra para homenagear o gênio Ariano Suassuna), com mistura de popular e erudito, real e imaginário, sensorial e intelectual, afetivo e crítico.
Justo quando eu estava pensando no cinema de Kleber e sua capacidade de me retornar ao Recife, caiu no meu colo, ou melhor, em meus ouvidos, o Podcast do Dom, que reproduz trechos do programa Um olhar sobre a cidade, que foi ar na Rádio Olinda, entre 1973 e 1984. São partes das crônicas escritas e lidas por Dom Helder Câmara, arcebispo emérito de Olinda e Recife, um grande líder, personalidade icônica da Igreja Católica e um incansável defensor dos direitos humanos, mesmo na época da ditadura.
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São muitos episódios com pílulas de sabedoria sobre a vida no dia a dia, aconselhamentos e também crítica social, da qual nunca se eximiu. Não sei se continuará, pelo que vi foi até julho de 2025. Mas a verdade é que aquilo despertou a minha criança, lá do Recife, quando o rádio e Dom Helder eram instituições extremamente presentes. Em casa, colava o ouvido no rádio para ouvir sua palavra, notícias, resenhas esportivas, causos, novelas.
Há dias, tenho parado e ouvido os trechinhos curtos da palavra de Dom Helder, lembrando de tudo em volta naquela época e repovoando minhas memórias afetivas. Da mesma forma como a arte de Kleber Mendonça Filho, em sua ficção cheia de elementos reais e históricos, me causou emoção genuína. Arte e memória andam juntas. Só tenho a agradecer por presentes assim. Torço pelo filme com a força do meu Recife, e ela é maior que o mundo todinho, e honro a dignidade de Dom Helder todos os dias.

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