Editorial

Visão do Correio: Fraude ameaça virar crise de confiança institucional

Decisão do ministro Dias Toffoli de prorrogar por mais 60 dias as investigações sobre suspeitas de irregularidades confirma que não se trata apenas de um escândalo bancário. Trata-se de um teste de estresse da própria arquitetura institucional que sustenta a economia brasileira.

A Polícia Federal (PF) aponta que o Master teria emitido Certificados de Depósito Bancário (CDBs) com promessa de rentabilidade de até 40% acima da taxa básica do mercado — retorno que, na lógica financeira, soa irreal sem risco extremo ou mecanismos artificiais. -  (crédito: Rovena Rosa/Agencia Brasil)
A Polícia Federal (PF) aponta que o Master teria emitido Certificados de Depósito Bancário (CDBs) com promessa de rentabilidade de até 40% acima da taxa básica do mercado — retorno que, na lógica financeira, soa irreal sem risco extremo ou mecanismos artificiais. - (crédito: Rovena Rosa/Agencia Brasil)

Não existe normalidade quando o caminho do dinheiro faz com que a fraude se misture ao poder. O crime se torna uma grave patologia institucional. A decisão do ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF), de prorrogar por mais 60 dias as investigações sobre suspeitas de irregularidades na operação envolvendo o Banco Master e o Banco de Brasília (BRB) confirma que não se trata apenas de um escândalo bancário. Trata-se de um teste de estresse da própria arquitetura institucional que sustenta a economia brasileira.

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A Polícia Federal (PF) aponta que o Master teria emitido Certificados de Depósito Bancário (CDBs) com promessa de rentabilidade de até 40% acima da taxa básica do mercado — retorno que, na lógica financeira, soa irreal sem risco extremo ou mecanismos artificiais. O volume estimado do esquema, na casa de R$ 12 bilhões, agrava o quadro. O que parecia um problema bancário localizado passa a ter sinais de engrenagem estruturada: uso de fundos de investimento, elos societários e familiares, transações entre partes relacionadas, ativos sem liquidez e artificialmente precificados, além de suspeitas de laranjas e sócios ocultos.

A tipificação mencionada nas apurações evidencia a gravidade: organização criminosa, gestão fraudulenta de instituição financeira, indução de investidores ao erro, uso de informação privilegiada, manipulação de mercado e lavagem de dinheiro. Isso revela uma quebra de paradigma: não se trata de inadimplência ou erro de gestão, mas de possíveis fraudes sistemáticas que podem ter explorado vulnerabilidades do mercado de capitais e, sobretudo, a confiança pública. E confiança é o elemento invisível mais importante da estabilidade econômica.

A crise ganha contornos sistêmicos não necessariamente pelo tamanho do banco, mas pela interconexão e pelo efeito dominó. Se a percepção pública for a de que regras podem ser contornadas, o resultado é previsível: investidores recuam, o custo de captação aumenta, o crédito encarece e a credibilidade do mercado sofre um dano que não se resolve com discursos, apenas com instituições funcionando dentro de suas competências.

O ponto de maior sensibilidade institucional está na tentativa de venda do Master ao BRB, que chegou a avançar, mas foi barrada pelo Banco Central (BC). Há indícios, segundo a PF, de envolvimento de dirigentes do BRB no esquema. A suspeita de ativos inflados — inclusive com créditos inexistentes — para melhorar artificialmente a situação do banco antes de uma possível negociação torna o episódio ainda mais grave. Ao vetar a operação, o BC reafirmou um princípio essencial: prudência regulatória não pode ser substituída por acomodação política.

É nesse momento que o Estado Democrático de Direito precisa mostrar solidez. O Banco Central tem atribuição legal e constitucional para zelar pela estabilidade do sistema financeiro e pela integridade prudencial do mercado. A PF deve investigar crimes complexos, rastrear fluxos e identificar redes de fraude. O Ministério Público Federal é o titular da ação penal e fiscal da lei, com independência para conduzir a acusação e requisitar diligências. O Tribunal de Contas da União atua para proteger o patrimônio público e fiscalizar operações que possam envolver risco ao erário. E o STF deve garantir o devido processo, a competência adequada e o equilíbrio institucional, evitando que o tribunal seja percebido como protagonista de uma crise que deveria arbitrar.

O risco maior não é apenas a fraude: é a erosão de fronteiras. Quando surgem decisões fora da praxe, disputas sobre custódia de provas e sinais de tensão entre órgãos, o país corre o risco de substituir o devido processo por uma guerra institucional. No mercado financeiro, essa percepção é particularmente tóxica, porque a estabilidade depende da crença de que as regras são previsíveis e valem para todos.

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Por Opinião
postado em 18/01/2026 06:00
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