
Quando a ordem internacional estremece, o impacto não se mede apenas pela força do ato, mas pela diferença entre quem se surpreende e quem sempre operou em um ambiente estruturalmente desfavorável. A ação de Donald Trump sobre a Venezuela, neste mês, produziu um choque imediato no sistema internacional, tanto pela violência do gesto quanto pela clareza de sua lógica política. A intervenção consolidou um padrão unilateral que muitos passaram a identificar como o esgotamento prático do direito internacional construído após 1945. Ainda assim, seus efeitos não se distribuem de forma homogênea entre os atores globais.
Para o Sul Global, e particularmente para o Brasil, trata-se menos de uma inflexão inédita e mais da explicitação de uma dinâmica historicamente conhecida. O sistema internacional ancorado em normas jurídicas, governança e previsibilidade institucional nunca operou de maneira plenamente favorável às pretensões de autonomia e desenvolvimento da periferia. Embora sustentado por uma retórica universalista, funcionou como mecanismo de hierarquização e contenção de interesses. A erosão atual das regras, portanto, não inaugura um ambiente hostil, mas torna visível o terreno no qual a política externa do Sul sempre precisou atuar. Nesse contexto, a hostilidade do sistema não se apresenta como crise de identidade, mas como expressão recorrente das relações de poder.
Enquanto o Norte Global processa a perda de um arcabouço do qual dependia para sua estabilidade, o Sul lida com a ruptura como parte de um ambiente historicamente desfavorável, marcado pela ausência de garantias. O colapso dessa ordem remove o véu de uma igualdade jurídica raramente efetiva, permitindo que a diplomacia nacional opere com maior clareza sobre os interesses em jogo.
Essa condição produziu uma diplomacia moldada para operar sob assimetria, instabilidade e escassez de garantias. Países como o Brasil desenvolveram estratégias que prescindem da proteção automática das instituições multilaterais e se apoiam na diversificação de parcerias, na autonomia decisória e na leitura pragmática das correlações de força. O cenário atual apenas evidencia as limitações daqueles que estruturaram sua inserção internacional a partir da previsibilidade assegurada por terceiros, agora ausente, e da expectativa de continuidade de uma ordem que perdeu capacidade de constranger comportamentos.
Esse contraste tornou-se evidente na reação europeia à crise venezuelana. Ao celebrar publicamente um suposto retorno da democracia e anunciar novos ventos políticos sobre Caracas, as chancelarias europeias projetaram sobre a intervenção um vocabulário normativo ausente do discurso de Trump, que evitou deliberadamente a linguagem democrática e adotou uma agenda de caráter instrumental. A resposta europeia revelou menos convicção normativa e mais dificuldade de reconhecer a ruptura em curso, preservando símbolos de uma ordem que já não encontra respaldo nem nos fatos nem na prática política.
A mesma dificuldade se manifestou em conflitos recentes. A guerra na Ucrânia, travada no próprio continente europeu, expôs a dependência securitária em relação ao poder militar norte-americano, com decisões estratégicas subordinadas a prioridades externas e voláteis. Em Gaza, condenações formais às ações de Israel coexistiram com o apoio a iniciativas diplomáticas delineadas fora da Europa, evidenciando os limites de sua autonomia política e estratégica em contextos de alta pressão internacional.
No plano econômico-comercial, a diferença de capacidade adaptativa também se impôs. Diante do tarifaço imposto em 2025, a União Europeia optou por um acordo rápido, alvo de críticas pelas concessões realizadas. O Brasil, embora inicialmente mais atingido e com canais diplomáticos bloqueados, manteve sua posição, ampliou interlocuções alternativas e obteve um resultado provisório mais eficiente. Esse comportamento contrasta com a hesitação europeia em avançar no acordo com o Mercosul, apesar de ele se alinhar à ampliação de mercados e à redução de dependências, estratégia mais coerente com o ambiente internacional atual e com a lógica de diversificação adotada pelo Sul Global.
Passado o impacto inicial, a instabilidade deixa de parecer uma anomalia. Isso não significa que a transição para um arranjo pós-liberal seja menos custosa, mas que essas dificuldades não são desconhecidas para países habituados a operar sob assimetrias e incertezas. O que para o Norte Global surge como ruptura abrupta, para o Sul é a continuidade de um ambiente no qual avançar exige menos apego à perda da ordem e maior capacidade de ajuste ao movimento do sistema. O fim do ciclo liberal do direito internacional, portanto, não encerra a diplomacia, mas eleva o custo de exercê-la em um mundo onde garantias permanentes deixaram de existir.

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