
Andréa Jácomo — pediatra, professora da medicina do Ceub, coordenadora do Departamento de Pediatria Ambulatorial da SPDF
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Desde que o mundo é mundo, o cuidado com as crianças sempre foi embasado na transmissão dos cuidados infantis entre as gerações pela tradição oral e relacionada aos modelos culturais. As avós eram autoridade máxima no quesito alimentação e sobrevivência. A puericultura, campo do conhecimento dedicado à saúde da criança de forma preventiva e integral, só se consolidou no início do século 20. As recomendações médicas, agora com base nos estudos científicos, passaram a nortear os cuidados com as crianças.
Na alimentação, as mudanças foram marcantes. Esta semana, uma avó que acompanhava a consulta da neta, ao me ouvir fazer as recomendações da introdução alimentar, me disse que iria "se mudar para o Nepal durante a introdução alimentar", já que não podia mais oferecer suco nem bater a comidinha do liquidificador! A introdução precoce de sucos, chás e papas de amido, antes incentivada, foi substituída pela recomendação do aleitamento materno exclusivo até os seis meses. Da mesma forma, a introdução tardia de alimentos potencialmente alergênicos, ao contrário do que se pensava nos anos de 1990, atualmente é recomendada de forma estratégica antes dos 12 meses para gerar tolerância imunológica.
Recentemente, o governo dos Estados Unidos lançou o Dietary Guidelines for Americans 2025-2030, introduzindo, por lá, um conceito visualmente disruptivo: a pirâmide alimentar invertida. As novas diretrizes refletem uma tentativa de conter as epidemias de obesidade e diabetes tipo 2 que atingem crianças americanas de forma precoce, se perpetuam pela adolescência e têm repercussão na vida adulta. Em 2025, alcançou-se um marco histórico: pela primeira vez, a prevalência global de obesidade entre crianças e adolescentes, na faixa etária de 5 a 19 anos, superou a de desnutrição.
A pirâmide clássica, consolidada nos anos de 190, trazia em sua base larga os pães, cereais e massas. No novo modelo americano, a base, que representa a prioridade nutricional, é ocupada por proteínas de alta qualidade, vegetais, frutas e gorduras saudáveis. O topo, agora estreito e apontado para baixo, restringe os carboidratos refinados e açúcares adicionados. A grande inovação científica desse guia é o foco na densidade nutricional em vez de meras calorias. Pela primeira vez, há um incentivo explícito à "comida de verdade", alinhando-se ao que o nosso Guia Alimentar para a População Brasileira já defende há mais de 10 anos: priorizar alimentos in natura e minimizar ultraprocessados, substâncias que sequestram o paladar infantil e desregulam o metabolismo.
Por lá, a American Heart Association (AHA) elogia a restrição de açúcares, mas expressa preocupação com a nova flexibilidade americana em relação às gorduras saturadas. Enquanto o guia americano agora permite laticínios integrais e carnes vermelhas com maior ênfase, a AHA mantém que, para a saúde cardiovascular infantil, as gorduras insaturadas (peixes e óleos vegetais) e os laticínios desnatados após os 2 anos continuam sendo o padrão-ouro. Já a Academia Americana de Pediatria destaca como ponto forte a recomendação de zero açúcar na infância e a restrição de ultraprocessados, mas preocupa-se com a possível redução de fibras provenientes de grãos integrais, essenciais para o microbioma intestinal em desenvolvimento.
Aqui no Brasil, a Sociedade Brasileira de Pediatria, por meio das publicações dos departamentos científicos de Nutrologia e Saúde Escolar, reconhece que as mudanças dos padrões de alimentação que ocorrem no mundo inteiro precisam de atenção. Evidências científicas relacionam o consumo de alimentos ultraprocessados com aumento do risco de morte e doenças crônicas não transmissíveis ao longo da vida, como cânceres, prejuízo na saúde mental, doenças respiratórias e cardiovasculares, gastrointestinais e metabólicas. O Ministério da Saúde também endossa a preocupação, inclusive com meta de redução do limite máximo de alimentos processados e ultraprocessados no cardápio das escolas do Programa Nacional de Alimentação Escolar para 10% em 2026.
Para as famílias, a recomendação é integrar a sabedoria do Guia Alimentar para a População Brasileira, que privilegia o alimento in natura e o ato de comer em companhia, com a lógica da nova pirâmide alimentar invertida, que também prioriza "comida de verdade", restringindo ultraprocessados e açúcares. Assim, entregaremos aos nossos filhos muito mais que calorias; entregaremos qualidade de vida e longevidade.
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