
Não existe República sem transparência. E não há transparência possível quando a luz pública é deliberadamente filtrada por sombras, agendas paralelas e relações opacas entre poder econômico e autoridades do Estado. O escândalo envolvendo o Banco Master e seu controlador, Daniel Vorcaro, expôs mais do que um conjunto de suspeitas financeiras: revelou um padrão de funcionamento que afronta princípios republicanos elementares, sobretudo a publicidade e a impessoalidade dos atos públicos.
No clássico da filosofia grega A República, Platão descreve o célebre mito da caverna. Nele, homens acorrentados desde o nascimento confundem sombras projetadas na parede com a própria realidade. Quando um deles consegue sair, vê o mundo como ele é e, ao retornar para alertar os demais, é desacreditado e hostilizado. A alegoria permanece atual porque descreve não apenas a ignorância, mas o conforto da ignorância — e o poder daqueles que controlam a luz e as sombras.
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No caso Master, a metáfora simboliza o emaranhado de relações não transparentes entre o sistema financeiro, a política e o sistema de Justiça. As sombras são as reuniões fora da agenda oficial, os contratos milionários sem explicações públicas suficientes, as intermediações envolvendo pessoas próximas a ministros do Supremo Tribunal Federal. Nada disso, isoladamente, constitui prova de ilegalidade automática. O problema é outro, mais profundo: a naturalização da opacidade em um regime que se diz republicano.
A Constituição não exige apenas que o Estado seja honesto; exige que pareça honesto. A legitimidade democrática não se sustenta apenas no cumprimento formal da lei, mas na confiança pública de que as decisões são tomadas à luz do dia, por critérios universais, e não por relações pessoais ou circuitos informais de influência. Quando essa confiança é corroída, abre-se espaço para o veneno antidemocrático — o discurso de que "as instituições não merecem crédito", de que a democracia é uma farsa.
É nesse ponto que o Supremo se encontra na berlinda. Não porque haja, até aqui, condenação ou comprovação definitiva de desvios, mas porque a Corte ocupa uma posição singular no arranjo institucional brasileiro. O STF não dispõe de "legitimidade de saída" eleitoral; sua autoridade repousa na coerência jurídica, na estabilidade das decisões e, sobretudo, na conduta irrepreensível de seus integrantes. Qualquer sombra projetada sobre esse edifício afeta todo o sistema republicano.
O mito platônico ensina que o maior risco não é apenas viver na caverna, mas defender a caverna. Reagir às revelações com corporativismo, silêncio ou desqualificação automática das críticas equivale a proteger as sombras. Ao contrário, a resposta republicana exige transparência ativa: esclarecimentos públicos, divulgação de agendas, explicitação de vínculos, prestação de contas detalhada. Quem exerce poder em uma democracia não tem o direito ao conforto da penumbra.
Há também um equívoco recorrente que precisa ser enfrentado: o de que exigir transparência seria "atacar as instituições". É exatamente o oposto. Instituições se fortalecem quando são capazes de se submeter ao escrutínio público sem medo. A opacidade é o terreno fértil do autoritarismo; a luz é a matéria-prima da República.
O caso Master, portanto, não é apenas um escândalo financeiro em investigação. É um teste político e moral para o Estado brasileiro. Permaneceremos acorrentados às sombras, aceitando explicações mínimas e rituais formais de legalidade? Ou teremos a coragem institucional de sair da caverna, mesmo sabendo que a luz incomoda, expõe e cobra?
Platão advertia que o retorno do homem liberto à caverna seria traumático. Mas, sem o confronto com a realidade, a comunidade permanece prisioneira da ilusão. Defender a democracia, hoje, passa por isso: romper com o mito confortável da normalidade opaca e reafirmar, sem concessões, que não há República possível sem transparência radical.
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