OPINIÃO

A camisa 6 pede socorro: é grave a crise na lateral esquerda do Brasil

Vivemos a era dos pontas. A linha de fundo não pertence mais aos laterais. Eles viraram construtores por dentro ou terceiro zagueiro. Crianças talentosas para ala são transformadas em extremos na base

Houve um tempo em que olhávamos para a lateral esquerda dos principais times da Europa e lá estava um jogador brasileiro. Roberto Carlos e Marcelo no Real Madrid. Sylvinho no Barcelona. Zé Roberto a serviço do Bayern de Munique. Gilberto e Maxwell na Internazionale. Serginho no Milan. Filipe Luís no Atlético de Madrid, Alex Sandro no Porto e na Juventus. Alex Telles no Manchester United...

A volta de Renan Lodi ao país para o Atlético-MG é simbólica. Os clubes brasileiros estão numa vibe de repatriar laterais esquerdos em série num espantoso êxodo reverso. Quem trabalhava na Europa voltou ao país e escancara a realidade: há demanda por laterais esquerdos brasileiros de ponta no mercado interno. A solução não está na base, mas lá fora. Renan Lodi atuava no Al-Hilal da Arábia Saudita!

Em 2019, o Flamengo repatriou do Atlético de Madrid Filipe Luís. Ele se aposentou e virou técnico. O Fluminense trouxe de volta Marcelo do Real Madrid em 2023, outro ídolo que pendurou as chuteiras. Ambos foram convocados por Tite para a Copa do Mundo de 2018.

Há quatro anos, os laterais do Brasil no Catar eram Alex Sandro e Alex Telles. Os dois atuam no Brasil. O Flamengo contratou Alex Sandro no ano passado. O Botafogo buscou Alex Telles no Al-Nassr para assumir uma posição até então carente no Glorioso. O reforço resolveu.

Os melhores laterais esquerdos do país voltaram ao mercado nacional. Hoje, faltam referências na Europa. Quem se mantém empregado no Velho Continente milita em clubes de segundo e terceiro escalões numa demonstração da vulnerabilidade do Brasil no setor onde tivemos gênios como Nilton Santos, Júnior e Branco.

Douglas Santos veste a camisa do Zenit São Petersburgo. Carlos Augusto é reserva na Internazionale. Caio Henrique joga no Monaco. Outros dois laterais esquerdos chamados por Carlo Ancelotti atuam no Brasil: Alex Sandro (Flamengo) e Luciano Juba (Bahia). Com a chegada de Lodi, Guilherme Arana trocou o Atlético-MG pelo Fluminense. São opções confiáveis?

Renan Lodi era cotado para disputar a Copa de 2022 até falhar no gol de Di María na final da Copa América de 2021 no Maracanã. Errou o tempo da bola, o meia-atacante invadiu a área pela direita e encobriu o goleiro Alisson no lance crucial.

Tite só voltou a convocá-lo no ano seguinte ao erro. Lodi enfrentou a Tunísia em 2022 em um amistoso no Parque dos Príncipes, em Paris. Alex Sandro e Alex Telles se firmaram até a Copa e conquistaram as duas vagas. Renan Lodi voltou a ser chamado pelo técnico Fernando Diniz nas Eliminatórias para a Copa de 2026. Enfrentou Bolívia, Peru e Colômbia no início da campanha até sumir — justamente — do mapa com Dorival e Ancelotti.

Vivemos a era dos pontas. A linha de fundo não pertence mais ao lateral. Eles são obrigados a jogar por dentro como construtores ou a compor linha de três com os zagueiros. Crianças talentosas para as alas são transformadas em extremos na base. Demanda do mercado. Vende mais rápido. É grave a crise na lateral esquerda. A camisa 6 pede socorro!

 


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