ARTIGO

Salvar o Cerrado começa pelos rios

A recuperação do Rio Melchior tem impacto que vai muito além de suas margens. Ela dialoga diretamente com a preservação do bioma Cerrado, o berço das águas do Brasil

Paula Belmonte — deputada distrital, segunda vice-presidente, procuradora Especial da Mulher e presidente da CPI do Rio Melchior na Câmara Legislativa

Durante muitos anos, o Rio Melchior foi tratado como um problema invisível. Um rio transformado em destino final de esgoto, chorume e omissões do poder público. Um curso d'água que corta o Distrito Federal e que, por muito tempo, simbolizou o abandono ambiental imposto às comunidades do seu entorno. A CPI do Rio Melchior, finalizada em 15 de dezembro na Câmara Legislativa, foi criada para romper com essa lógica e estabelecer um novo marco de responsabilidade ambiental para o Distrito Federal.

O relatório final da CPI representa um marco para Brasília. Não apenas pelo volume de informações reunidas —  mais de mil páginas de dados técnicos, laudos, oitivas e provas, mas principalmente porque transformou denúncia em caminho concreto de recuperação ambiental e social. A partir dele, estabelece-se um novo marco institucional, que reconhece o Rio Melchior como um rio passível de recuperação.

Uma das principais recomendações do relatório é a reclassificação do Rio Melchior da Classe 4 para a Classe 3. Essa mudança impõe regras mais rígidas de controle, tratamento de efluentes e fiscalização, cria obrigações legais mais severas e abre espaço real para a revitalização do curso d'água. É a base jurídica necessária para virar a página de décadas de degradação ambiental.

A CPI também revelou falhas graves na gestão ambiental, no tratamento de esgoto e do chorume e na atuação dos órgãos responsáveis pela fiscalização. O que ficou evidente é que o problema está na ausência de decisão política, planejamento e prioridade por parte do governo ao longo dos anos. Nosso objetivo, com a CPI, foi justamente criar as condições para que essas omissões não se repitam e para que as responsabilidades sejam assumidas.

Além de apontar falhas e responsabilidades, a CPI teve caráter propositivo. Ao longo dos trabalhos, a comissão conheceu e analisou boas práticas no manejo de resíduos sólidos e no tratamento da água adotadas em cidades brasileiras, como Rio de Janeiro e São Paulo, e em países europeus, como Suécia e Alemanha. Essas experiências demonstram que é possível conciliar desenvolvimento, eficiência ambiental e qualidade de vida, desde que haja decisão política, planejamento e compromisso com soluções sustentáveis. A CPI buscou justamente apresentar referências concretas para a implementação de políticas públicas eficazes no Distrito Federal.

A recuperação do Rio Melchior tem impacto que vai muito além de suas margens. Ela dialoga diretamente com a preservação do bioma Cerrado, o berço das águas do Brasil. É no Cerrado que nascem algumas das principais bacias hidrográficas do país, responsáveis por abastecer milhões de brasileiros. Quando um rio do Cerrado adoece, todo o sistema sente. Quando ele se recupera, o efeito é profundo e multiplicador.

Recuperar o Rio Melchior significa permitir a regeneração do solo, a descontaminação dos lençóis freáticos, a melhoria da qualidade da água e o retorno gradual da fauna. Significa também devolver dignidade às comunidades que convivem diariamente com os impactos da poluição, muitas vezes sem resposta do Estado.

Em um cenário de mudanças climáticas, escassez hídrica e eventos extremos cada vez mais frequentes, cuidar dos rios deve ser política de prevenção, não de reação. É investir hoje para evitar tragédias ambientais, crises de abastecimento e custos sociais muito maiores no futuro.

Tratar a proteção ambiental como obstáculo ao desenvolvimento é um erro histórico. Experiências bem-sucedidas mostram que equilíbrio ambiental gera segurança jurídica, atrai investimentos e promove crescimento econômico e social com responsabilidade. Política ambiental séria é política econômica inteligente.

A CPI do Rio Melchior mostrou que é possível fiscalizar com responsabilidade, coragem e base técnica. Mostrou também que cuidar do meio ambiente é cuidar das pessoas, porque são sempre os mais vulneráveis que sofrem primeiro quando o Estado se omite diante da degradação ambiental.

O desafio, agora, é garantir que as recomendações do relatório sejam plenamente implementadas. Monitorar, cobrar, fiscalizar e agir para que o Rio Melchior nunca mais seja tratado como um problema a ser escondido. Sua recuperação representa uma escolha política clara. Proteger o Cerrado, respeitar a vida e planejar o futuro de Brasília com responsabilidade, transparência e compromisso com as próximas gerações.

Salvar o Cerrado começa pelos rios. E o Rio Melchior precisa, definitivamente, fazer parte dessa história de recuperação.

 

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