Guilherme Oliveira — diretor científico do Instituto Tecnológico Vale (ITV); Alexandre Aleixo — cientista do ITV e pesquisador líder do GBB
O Brasil é reconhecido como o país mais biodiverso do planeta, abrigando uma parcela expressiva das espécies conhecidas de fauna e flora. Paradoxalmente, também está entre as nações que mais sofrem com a perda acelerada de biodiversidade, resultado da fragmentação de habitats, das mudanças climáticas, das pressões antrópicas e da exploração insustentável dos recursos naturais. Diante desse cenário desafiador, uma boa notícia emerge da ciência brasileira: o país está inaugurando um novo capítulo na história da conservação, baseado no uso estratégico de ferramentas genéticas na área da genômica.
Em síntese, genômica compreende o conhecimento integrado do conjunto completo do material genético de um organismo, incluindo sua estrutura, função, variação, expressão e evolução.
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O projeto Genômica da Biodiversidade Brasileira (GBB), fruto de uma parceria entre o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e o Instituto Tecnológico Vale (ITV), posiciona o Brasil na fronteira do conhecimento genômico aplicado à conservação da natureza. Em apenas dois anos de execução, o projeto sequenciou mais de 800 genomas, contemplando 413 espécies da fauna e flora brasileiras, incluindo espécies emblemáticas e ameaçadas de extinção, como a onça-pintada (Panthera onca), a ararajuba (Guaruba guarouba) e o peixe-boi da Amazônia (Trichechus inunguis). Além disso, foram gerados 40 genomas de referência de altíssima qualidade (nível cromossômico), um feito inédito em escala nacional.
Esses genomas de referência funcionam como verdadeiros "mapas genéticos", permitindo compreender como as espécies estão estruturadas do ponto de vista genético, como se adaptam ao ambiente e como respondem a pressões como doenças, mudanças climáticas e perda de conectividade entre populações. Essas informações são essenciais para subsidiar decisões de manejo, avaliar riscos de extinção e orientar políticas públicas baseadas em evidências científicas.
O impacto do GBB, no entanto, vai muito além do laboratório. O projeto incorpora de forma inovadora o uso de DNA ambiental (eDNA) e técnicas de metabarcoding, que permitem detectar a presença de espécies a partir de vestígios genéticos encontrados em amostras de solo, água ou folhiço, sem a necessidade de capturar ou observar diretamente os organismos.
Essa abordagem vem sendo testada em Unidades de Conservação como a Floresta Nacional do Tapajós (PA) e a Reserva Extrativista do Rio Cajari (AP), integrando-se ao Programa Nacional de Monitoramento da Biodiversidade (Monitora) do ICMBio. Trata-se de uma verdadeira revolução silenciosa no monitoramento da biodiversidade, tornando-o mais eficiente, abrangente e menos invasivo.
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O GBB também se destaca pelo seu impacto científico e social. Até o final de 2025, o projeto envolveu cerca de 290 pesquisadores de 107 instituições, no Brasil e no exterior, e concedeu mais de 70 bolsas de pesquisa, contribuindo para a formação de uma nova geração de profissionais capacitados a integrar biotecnologia, bioinformática e conservação. Com um investimento previsto de US$ 25 milhões até 2028, o projeto demonstra que investir em ciência é também investir em soberania, inovação e futuro.
Em um mundo no qual a perda de biodiversidade ameaça o equilíbrio dos ecossistemas e a própria sobrevivência humana, a genômica deixa de ser um luxo acadêmico e se consolida como uma necessidade estratégica. Com sua imensidão biológica, o Brasil não apenas tem a responsabilidade, mas também a oportunidade de liderar essa nova fronteira do conhecimento. O GBB é a prova concreta de que, quando ciência, tecnologia, conservação e parcerias institucionais caminham juntas, o país pode oferecer ao mundo não apenas dados, mas esperança.
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Nesse contexto, o Instituto Tecnológico Vale Desenvolvimento Sustentável (ITV DS), sediado em Belém, no Pará, cumpre um papel central. Atuando há mais de 15 anos na Amazônia, o instituto investiu cerca de R$ 600 milhões em projetos de pesquisa voltados ao desenvolvimento sustentável, consolidando-se como um dos principais polos nacionais de produção de conhecimento científico aplicado à conservação da biodiversidade e à bioeconomia no Brasil.
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