IZETE SANTOS DO NASCIMENTO, mestra em processos de desenvolvimento humano e saúde (UnB), professora-pesquisadora, integra a Coordenação Colegiada da Remnco e SÔNIA CLEIDE FERREIRA DA SILVA, ativista social e fundadora do Grupo de Mulheres Negras Malunga, integra a Coordenação Colegiada da Remnco
A resistência das mulheres negras no Centro-Oeste não é um gesto isolado, mas um movimento contínuo que atravessa o tempo e finca raízes no coração do Brasil. No Cerrado — território de ventos, veredas e sabedorias antigas —, germina a força de quem aprendeu a transformar dor em semeadura. É nesse chão de contrastes, onde o sol queima e a vida insiste, que as mulheres negras, indígenas, quilombolas e de comunidades tradicionais reescrevem diariamente a história da região, conectando ancestralidade, presente e futuro. Suas trajetórias, marcadas pela luta coletiva e pelo compromisso com o bem-viver, fazem do Cerrado não apenas um bioma, mas um território de resistência, aonde cada passo dado é também um ato de memória e esperança.
O Cerrado é mais que paisagem: é memória viva, é corpo e reza, é tambor e travessia. Nele floresce a lembrança de Leodegária de Jesus, poeta goiana que, mesmo silenciada por um mundo racista e patriarcal, ergueu sua palavra como espada e canção. Nossas histórias, antes dispersas, encontram na Rede de Mulheres Negras do Centro-Oeste o fio que as costura — um manto tecido com a fibra das que nunca desistiram.
Nos encontros dos coletivos de mulheres negras, quilombolas e de comunidades tradicionais, cis, trans, nas margens dos rios, nos terreiros, territórios, renasce o gesto ancestral de reunir-se. Assim, nasceu, em 2025, a Rede de Mulheres Negras do Centro-Oeste (Remnco): da escuta e do encontro, da necessidade de nomear-se e reconhecer-se, da urgência de transformar o isolamento em força coletiva. Já éramos 16 organizações unidas pelos quatro ventos da região — Distrito Federal, Goiás, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul — que reafirmam: sem a voz e a centralidade das mulheres negras, não há transformação social possível.
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No encontro virtual de lançamento — um gesto simbólico de retomada e reafirmação de pertencimento —, quatro perguntas ecoaram como bússolas a guiar a caminhada: quem são as mulheres negras da região Centro-Oeste? Por que precisamos de uma Remnco? O que as mulheres negras do Centro-Oeste precisam e querem? Como a Rede deve se comunicar? Essas perguntas, além de um ponto de partida, são um horizonte permanente de reflexão-ação e seguem nos guiando, como cantos antigos que ressoam em cada decisão, lembrando-nos de que pensar o futuro é também revisitar o passado com coragem e ternura.
São mulheres das águas, do campo e da cidade, partilhando saberes e dores, reafirmando que a luta é também um modo de viver. Dali brotou a certeza de que cada passo dado é continuação de uma caminhada longa, aberta por pés descalços de nossas mais velhas.
A Remnco nasceu do sonho semeado na Assembleia da Articulação de Mulheres Negras Brasileiras, em Salvador, em 2022. Sonho que atravessou o Atlântico das ideias e floresceu no coração do Brasil. Somos filhas do fogo e da palavra, e aprendemos que resistência é também produção de conhecimento: cada corpo negro que ocupa os territórios é um ato de desobediência, ora popular, ora epistemológico, contra o emudecimento das vozes negras.
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Nosso lema — O Cerrado como território de resistência — é bússola e raiz. Entre as veredas e chapadas, aprendemos que resistir é também florescer: o ipê que rasga o solo seco anuncia que a vida insiste. Assim somos nós — flores que se abrem na aridez do descaso, árvores que abrigam outras vidas, sementes que não se rendem ao fogo.
A Rede se move guiada por valores que atravessam o tempo: coletividade e solidariedade, ninguém caminha só; ancestralidade e memória — toda ação é retorno; radicalidade e justiça social — o direito à vida é inegociável; e o bem-viver, que é mais que sobrevivência — é o direito de existir em plenitude, sem violência, com dignidade e afeto.
Marchamos para o futuro de mãos dadas com a história. A 2ª Marcha das Mulheres Negras, em 25 de novembro de 2025, foi um marco dessa travessia. Marchamos por reparação, por justiça e por bem-viver, para que nossas filhas herdem não o medo, mas a liberdade; para que cada mulher negra do Centro-Oeste possa dizer, em voz alta e serena: "Nós somos as que herdaram o sonho e o transformaram em caminho".
E, quando o Sol descer sobre o Cerrado e o vento sussurrar entre as árvores retorcidas, nossas vozes continuarão ecoando — vozes que não se calam, vozes que escrevem o amanhã com o mesmo barro sagrado que moldou o ontem. Porque, enquanto houver mulher negra de pé neste chão, haverá resistência; enquanto houver Cerrado, haverá vida! O Cerrado como território de resistência!
