
Em meio ao intenso debate global sobre soberania, legislação internacional e interesses econômicos que se seguiu à intervenção dos Estados Unidos na Venezuela — e está longe de se esgotar —, um outro dilema envolvendo o país latino-americano segue se desenrolando sem desfecho previsível, e mais silenciosamente. Anunciada ontem, a decisão do Brasil de enviar agentes da Força Nacional de Segurança Pública para a fronteira com a nação vizinha, em Roraima, expõe novamente a crise migratória. Uma realidade muito mais grave do ponto de vista humanitário — e menos ruidosa nos fóruns mundiais —, que há anos expulsa o povo venezuelano de sua pátria, tendo cidades brasileiras como um dos principais destinos.
A mobilização das autoridades do Brasil evidencia a imprevisibilidade das consequências da ação dos EUA, com a deposição e captura do então presidente Nicolás Maduro, sobre a diáspora venezuelana. O reforço de agentes da tropa federal brasileira foi autorizado com destino à capital de Roraima, Boa Vista, e a Pacaraima — considerada a principal porta de entrada de imigrantes do país vizinho e que, ao longo dos últimos anos, tem sido palco de operações de controle migratório e de ações humanitárias em momentos de agravamento da crise na Venezuela.
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O próprio presidente Luiz Inácio Lula da Silva advertiu para os riscos de que uma intervenção armada na Venezuela desencadeasse uma catástrofe humanitária. A insegurança do povo venezuelano em relação aos desfechos dos acontecimentos pode ser, de certa forma, medida pela reação de muitos imigrantes já estabelecidos em território brasileiro e diante das primeiras notícias sobre a ação militar. Uma reação dividida entre a esperança de superação do totalitarismo do governo Maduro e o temor quanto aos resultados do imperialismo norte-americano sobre uma nação com o povo sofrido e empobrecido.
Naquela que é considerada a maior crise de deslocamento forçado da história recente da América do Sul, estima-se que a instabilidade na Venezuela já tenha expulsado das fronteiras do país cerca de 7,9 milhões de pessoas, segundo o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur). Mais de 6,9 milhões partiram para América Latina e Caribe em busca de segurança, trabalho e dignidade. Parcela expressiva está no Brasil, onde os venezuelanos compõem o maior grupo entre os imigrantes, segundo o Censo de 2022 do IBGE.
Até que se alcance um imprevisível equilíbrio no país vizinho, a volatilidade política, econômica e, agora, militar não parece contribuir para estancar esse movimento, especialmente diante de um novo componente intervencionista que espalha incerteza pelo território venezuelano. É nesse tabuleiro internacional complexo que o Brasil ocupa posição estratégica — geográfica, política e humanitária.
Para além da necessária atuação diplomática ante a crise internacional agravada pela intervenção militar externa, consolidando uma voz de liderança na América Latina, o país tem o desafio de lidar com a questão migratória combinando uma postura humanitária e de soberania. No primeiro caso, pelo imperativo ético e jurídico de acolher quem foge da fome, da violência e da repressão; no segundo, porque é indispensável reafirmar posições diante de ações externas que podem colocar em risco a estabilidade regional.
A crise venezuelana não é apenas um problema do país vizinho nem um capítulo — grave — da disputa geopolítica global. Ela bate à porta do Brasil todos os dias. Enfrentá-la com lucidez, humanidade e liderança regional se revela mais que nunca um imperativo de Estado.
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