ARTIGO

O mundo acelera com energias renováveis. E o Brasil pode ir além

Produzir eletricidade limpa já não é o principal desafio; o desafio agora é integrá-la de forma confiável, acessível e eficiente às economias nacionais

MAURÍCIO ANTÔNIO LOPES, pesquisador da Embrapa Agroenergia

A renomada revista Science escolheu como Avanço em Destaque do Ano de 2025 um acontecimento que, até pouco tempo atrás, parecia improvável: o crescimento acelerado das energias renováveis — especialmente solar e eólica —, a ponto de superarem o carvão mineral na geração global de eletricidade. Não se trata de uma descoberta científica pontual, mas de uma mudança concreta e mensurável na forma como o mundo produz e consome energia.

Esse reconhecimento é importante por duas razões. A primeira é que as energias renováveis deixaram de ser alternativas marginais e passaram a ocupar o centro da expansão do setor elétrico. A segunda é que, pela primeira vez desde a Revolução Industrial, o aumento da demanda por eletricidade está sendo atendido, em grande parte, por fontes de baixo carbono, freando o crescimento das emissões.

Essa virada não aconteceu por acaso. Ela resulta da combinação de queda consistente nos custos, produção em grande escala, cadeias industriais bem estruturadas e maior capacidade de integrar essas fontes aos sistemas elétricos. A transição energética, portanto, deixou de ser apenas um discurso ambiental e passou a ser uma realidade econômica, tecnológica e estratégica, com impactos diretos sobre segurança energética e desenvolvimento.

Esse avanço observado no setor elétrico global também revela uma mudança menos visível, mas igualmente relevante: o deslocamento do centro da inovação. Se antes o foco estava em novas tecnologias, hoje ele se volta para infraestrutura, regulação e governança. Produzir eletricidade limpa já não é o principal desafio; o desafio agora é integrá-la de forma confiável, acessível e eficiente às economias nacionais.

O artigo da Science destaca também o papel decisivo das cadeias globais de produção, especialmente a liderança da China na fabricação de painéis solares, turbinas eólicas e baterias. Esse domínio industrial reduziu custos em escala mundial e acelerou a adoção das fontes renováveis, inclusive em países em desenvolvimento, ao mesmo tempo em que trouxe novas questões geopolíticas ligadas à dependência tecnológica e à segurança das cadeias de suprimento.

Apesar do avanço expressivo, o próprio artigo reconhece que a transição energética ainda está longe de concluída. O uso do carvão persiste em diversas regiões, as redes elétricas precisam de grandes investimentos para lidar com fontes intermitentes e o ritmo da transição varia significativamente entre países. Ainda assim, o recado central é inequívoco: o crescimento das energias renováveis não é mais uma aposta de futuro, mas uma tendência estrutural já em curso.

Para o Brasil, essa constatação traz tanto conforto quanto desafio. O país parte de uma posição relativamente privilegiada, com uma matriz elétrica majoritariamente limpa, sustentada por hidrelétricas e, cada vez mais, por solar e eólica. No entanto, a rápida expansão de fontes intermitentes, concentrada em algumas regiões, já provoca momentos de excesso de oferta, com cortes de geração e desperdício de energia.

Somam-se a isso gargalos na transmissão e dificuldades de integração entre áreas produtoras e grandes centros de consumo, deixando claro que ampliar a geração limpa, embora essencial, não é suficiente sem investimentos proporcionais em redes, armazenamento e planejamento. Ao mesmo tempo, grande parte das emissões brasileiras está fora do setor elétrico, concentrada no transporte, na indústria, no uso da terra e nos sistemas produtivos.

É nesse ponto que o Brasil pode contribuir de forma decisiva para a transição energética. Enquanto grande parte do mundo acelera a eletrificação com base em solar e eólica, o país dispõe de uma vantagem comparativa singular: a capacidade de produzir bioenergias sustentáveis em escala, apoiada em uma base agrícola diversa e em tecnologias consolidadas. Biogás, biometano e biocombustíveis avançados são essenciais para descarbonizar setores onde a eletrificação é limitada ou inviável.

A transição energética brasileira, portanto, não será uma simples reprodução do modelo observado em outras regiões. Ela precisa ser pensada como um processo integrado, que combine eletricidade limpa com o uso inteligente da biomassa, conectando energia, agricultura, indústria e desenvolvimento territorial. Mais do que acompanhar a tendência global, o Brasil tem a oportunidade de oferecer uma contribuição própria, baseada em soluções tropicais, inclusivas e sustentáveis.

O avanço destacado pela Science é um marco da transição energética global. Para o Brasil, porém, ele deve ser visto menos como ponto de chegada e mais como convite à ampliação da ambição. O desafio não é apenas acelerar a eletrificação, mas integrar eletricidade limpa, bioenergia sustentável e uso inteligente da terra, transformando a diversidade energética do país em vantagem estratégica de longo prazo.

 


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