ARTIGO

O xerife está de volta

Trump decidiu elevar o já fabuloso orçamento de defesa dos Estados Unidos. Ou seja, ele quer mais: Groenlândia, Panamá e até Canadá o aguardam.

Opinião 10/01 -  (crédito: Caio Gomez)
Opinião 10/01 - (crédito: Caio Gomez)

ANDRÉ GUSTAVO STUMPF, jornalista

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No artigo publicado após o Natal, afirmei que o governo brasileiro previa a invasão da Venezuela pelos norte-americanos logo depois da virada do ano. A previsão foi absolutamente correta. Os brasileiros reforçaram os mecanismos de acolhida na fronteira com o país vizinho na expectativa de que haveria uma explosão de migração em Roraima. Não aconteceu. A operação norte-americana foi auxiliada de dentro. Alguém, com poder, decidiu entregar o ditador todo poderoso à custa da morte de seus guarda-costas cubanos e alguns venezuelanos. Tudo correu com o menor derramamento de sangue possível numa situação extrema, como foi o ocorrido nos céus de Caracas e arredores. Maduro perdeu o poder, mas curiosa e estranhamente, seus principais auxiliares continuam a dar as ordens, respaldados pelo governo de Washington.

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A população, que conhece as manias do pessoal que está no poder, decidiu ficar em casa. Ninguém correu as ruas para comemorar ou lamentar. É muito cedo. As milícias, organizadas pelo homem forte do regime, Diosdado Cabello, estão armadas e disponíveis para baixar o cacete em quem se meter a comemorar a vitória dos ianques. Os jornalistas naturalmente são perseguidos e proibidos de atuar no país. Quem insistir vai preso. Ou simplesmente desaparece. Em Washington, ao contrário, há um clima de vitória na transformação da Venezuela de país independente em protetorado norte-americano, conduzido pelo comércio do petróleo. É uma vitória complicada. A ação militar foi sensacional e bem-sucedida. Mas está longe de garantir a manutenção da ordem no país.

As operações militares dos Estados Unidos caracterizam-se pela capacidade de criar uma situação definitiva no primeiro momento. Foi assim no Iraque, na Líbia e no Afeganistão. Mas, diferentemente da primeira batalha, dominar um país exige competência política, objetivos definidos e muita interação com os locais. Nos três casos, o exército norte-americano destruiu o país, saqueou o que havia de valor, mas desmontou as forças políticas internas. A Líbia hoje não tem governo. O Iraque perdeu sua identidade. Nos dois casos, o petróleo passou a ser dominado por empresas norte-americanas. No Afeganistão, depois de dezenas de anos de dominação, os soldados foram embora e deixaram o poder nas mãos daqueles contra quem haviam lutado. Sem falar no Vietnã. Americanos lutaram ao lado do Vietnã do Sul, país que não existe mais. O Vietnã do Norte invadiu o Sul e consagrou a existência de um único país, comunista à maneira chinesa.

A operação Venezuela teve como justificativa a acusação de que Maduro era controlador do grupo Cartel de Los Soles. Depois, descobriu-se que esse cartel não existe. Na invasão do Iraque, o governo alegava que o país tinha armas de destruição em massa. Tudo mentira. Os iraquianos possuíam alguns rifles antigos, tanques enferrujados e nada mais além de bazófias do antigo regime. O presidente, antes como hoje, agiu ao arrepio da própria lei norte-americana. Fez guerra sem consultar o Congresso. Nem declarar a agressão ao agredido. Ação fulminante. Cirúrgica. O xerife norte-americano tem licença para matar, sequestrar e atacar navios em pleno mar. Desde a época dos piratas ingleses, no século 19, não acontecia algo semelhante no Oceano Atlântico. 

A situação na Venezuela é curiosa. A presidente Delcy Rodríguez precisa fazer um discurso vigoroso para seu público interno. E, com a outra mão, deve negociar com os norte-americanos. Ela já tinha feito acordo com a Chevron, grande petroleira norte-americana. Agora, ampliou para outras empresas com a promessa de fornecer 50 milhões de barris de petróleo para os norte-americanos e se comprometer com a compra de bens e serviços no mercado daquele país. O protetorado tem clara preocupação econômica, situação que remonta ao tempo das navegações portuguesas. Os representantes de El Rey de Portugal bombardeavam portos na Índia até que os locais concordassem em negociar prioritariamente com eles, portugueses. A lógica de Trump é a mesma. Vale a lei do mais forte.

Tudo isso terá consequência na política internacional. Se a teoria das zonas de influência prevalecer, a China poderá tomar Taiwan, sem receio de retaliações. E a Rússia, que tenta há quatro anos subjugar a pequena Ucrânia, poderá efetivar sua dominação para desespero dos governos da Europa, que estão revendo o perigo russo nas vizinhanças. Isso é apenas uma suposição. Os norte-americanos poderão se sentir tão empoderados a ponto de defender a Ucrânia e Taiwan e se proclamarem o grande xerife internacional. Trump decidiu elevar o já fabuloso orçamento de defesa dos Estados Unidos. Ou seja, ele quer mais: Groenlândia, Panamá e até Canadá o aguardam. E o Brasil, nas eleições de outubro, pode ter algumas surpresas por meio de candidatos muito endinheirados, escoltados por poderosos profissionais de relações públicas. Nada é impossível para o grande irmão do norte.

 

 


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Por Opinião
postado em 10/01/2026 06:00
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