Toinho Castro — poeta e multiartista
Diante da página em branco em que este texto se desenvolve, recordo que, lendo o livro Verdade tropical, de Caetano Veloso, esbarrei num comentário sobre Violeta Gervaiseau, irmã de Miguel Arraes, então exilada na França desde 1964, ano de triste memória, e que o recebia em Paris. "Ela nos acolheu com um misto de firmeza e carinho que só se encontra nos verdadeiros nordestinos", escreve Caetano. E esse comentário me remete imediatamente ao cinema de Kleber Mendonça.
Assistindo aos seus filmes, essa combinação delicada, de carinho e firmeza, transparece o tempo todo. Como um bordado que vai se enredando no tecido duro da realidade e que redime, a cada ponto, a própria vida, que luta ali na tela, em busca de sentido e justiça. Porque se muito se fala da dimensão política de filmes como Bacurau e O agente secreto, pouco se fala de um outro viés deveras importante. Se podemos dizer que O agente secreto é um filme político, é preciso que se diga, também, que há ali, sobretudo, uma política do afeto. Uma ordem do amor.
Vejo claramente em Dona Sebastiana, como já se sabe, magistralmente interpretada pela potiguar Tânia Maria, ao receber Marcelo, personagem de Wagner Moura, em sua casa, o espírito da mesma Violeta Gervaiseau que acolheu um Caetano exilado em Paris; um acolhimento, sobretudo, comunitário. A casa de Dona Sebastiana é o centro aquecido do resgate de Marcelo; é a feirinha e as frutas; é a sombra das árvores no terreiro, a conversa e a mesa posta. É refúgio num mundo que está tramando ao redor. A casa, essa fogueira ardente, está no centro do cinema de Kleber. Porque seu cinema começou em casa. Uma casa de portas abertas e mesa posta, como era a minha casa na mesma época. Era entre essas casas que transitávamos, urdindo ideias que se transformariam em filmes, livros e resistência. Aprendemos com nossas mães a resistência. A política do afeto.
No começo do filme, Marcelo procura pela identidade de sua mãe, literalmente o documento, em meio aos arquivos da Secretaria de Segurança Pública. A busca do registro é a reconstrução da memória. É onde nos agarramos quando tudo desmorona. É de onde se parte, para qualquer direção que a busca leve. Mais uma vez, esse filme me leva a Andrei Tarkovski, o cineasta russo, que, no seu livro Esculpir o tempo, reproduz a carta que uma das espectadoras do seu filme O espelho lhe escreveu: "...E, meu Deus, como é verdadeiro … nós de fato não conhecemos o rosto de nossas mães".
- Leia também: Te sacanearam. E agora?
Memória, acolhimento, resistência… busca e coragem. Por isso insisto que a política em O agente secreto é mais que ativista, partidária ou o que quer que seja. É afetiva. E ancorada na comunidade. E não há outra maneira de fazer política, senão comunitariamente; e o afeto é a liga. Quem nasce em Bacurau é gente, porque gente é do que se faz a vida. E essa é a dimensão política mais poderosa no trabalho de Kleber. Mostra que tu é intenso, diz ele para plateia de todos os seus filmes. É um desafio. É um chamado! O cinema está dentro da vida, não a reproduz simplesmente. Tendo acompanhado Kleber desde de seus primeiros movimentos, seus primeiros filmes, até hoje, vejo como foi se aperfeiçoando um jeito coletivo, baseado na amizade, de se fazer um filme. E de como é importante esse fazer, de como ele não está separado do resultado, que nunca é final; está sempre em transformação a cada apreciação, a cada olhar, como cada filme é quase uma ciranda. Porque a ciranda é política do afeto.
É essa é uma dimensão imensamente mais brasileira. E isso chegar ao mundo, num filme bem acabado, eletrizante e comovente, é o grande mérito de se fazer cinema neste país. Que O agente secreto veio para ficar e marcar a cultura nacional, e internacional, de forma indelével, não resta qualquer dúvida. Entre tantos prêmios recebidos e merecidos, dentro e fora do país, incluindo esse inédito Golden Globe, ou, como soa muito melhor, um Globo Dourado, a pergunta que paira no ar é se vem um Oscar por aí. Mas outra coisa que o filme deixa muito claro é que ele não precisa de um Oscar. Se vier será muito bem-vindo, mas O agente secreto, e o que ele afirma, não precisa de Oscar. O que ele precisa, ele já tem. Um público afiado, crítico, independente e vibrante, disposto a dançar essa ciranda e a promover uma política do afeto para além das fronteiras e divisões.
Saiba Mais
