ARTIGO

Venezuela, soberania e democracia

Apostemos nos novos tempos com esperança na sanidade da humanidade e no bom encaminhamento do progresso técnico e científico, seguindo as normas de soberania legítima e de democracia verdadeira

ADEMAR K. SATO, graduado em administração e em direito, pós-graduado em ciências sociais, mestre em economia, monge budista, ex-regente do Templo Budista de Brasília

O que o recente episódio ocorrido na Venezuela, que consistiu no sequestro do Maduro por Forças Armadas a mando do Trump, tem a ver conosco? Tentarei abordar a questão do ponto de vista transreligioso, transcultural e transpolítico-partidário, que é a minha plataforma hoje, após ter exercido por 20 anos a regência do Templo Budista de Brasília.

Primeiro, o Maduro. Ele é chefe do Executivo de um Estado soberano, com o Legislativo e o Judiciário funcionando, e tem o direito inalienável de governar o seu país, criar leis, aplicá-las e decidir o seu destino, sem submissão ao poder externo. É herdeiro de Hugo Chávez, que governou de 1999 a 2013, fortemente influenciado por Simón Bolívar (1783-1830), que teve papel fundamental na formação da América Latina, atuando diretamente na luta contra a Corte Espanhola pela independência de Venezuela, Colômbia, Equador, Peru e Bolívia. Tanto o governo de Chávez como o de Maduro tiveram orientação popular, no entendimento de que, na democracia moderna, o poder está com o povo na tomada das decisões políticas.

Ocorre que o próprio capitalismo é selvagem por sua origem e formação, e a natureza dispôs à Venezuela recurso imprescindível ao desenvolvimento moderno sob a forma de petróleo, agravando a situação em que a minoria proprietária e rica se distanciasse do crescente povo miserável, o que provocou tendência socialista do Estado para enfrentar a reação da oligarquia local.

Segundo, o Trump. O que ele quer mostrar com suas medidas estapafúrdias? Foi presidente de 2017 a 2021, como representante do Partido Republicano, não aceitou a perda da eleição para Joe Biden (2021-2025), do Partido Democrata, e, como mero especulador e bom comunicólogo, realizou o espetáculo da tomada frustrada do Parlamento e da Casa Branca, imitado por aqui, até na frustração. Se observarmos os últimos presidentes norte-americanos, como Obama, Bush Filho, Clinton, Reagan, eles completaram oito anos na função. 

Será que ele quer manter-se no poder por oito anos por vaidade? Ou para livrar-se do Caso Epstein? Garantir a próxima eleição, sem nenhuma preocupação ética sobre os resultados de agressão à soberania de países nem ao bem-estar dos cidadãos, desprezando a natureza do sofrimento que se abate sobre o próprio povo norte-americano que pode estourar como uma grande bolha? Propôs a transformação de Gaza em local de recreio, como se fosse Las Vegas, e, agora, compra a Groenlândia como se fosse mero negócio imobiliário, irritando a Dinamarca e toda a Europa.

Em terceiro lugar, Lula. A sua reeleição foi importante para o Brasil, para a América Latina, para os países não hegemônicos, para a nova configuração geopolítica mundial que já está gestada e em formação.

Sem Lula, as manifestações imediatas contra a intervenção militar norte-americana de vários órgãos da multipolaridade contemporânea poderiam passar como brancas nuvens. Ele não só telefonou imediatamente para a vice-presidente da Venezuela, uma mulher sábia que afirmara taxativamente que não seria colônia submissa dos Estados Unidos, como tem ordenado forte posicionamento diplomático em prol da paz, tranquilidade e solidariedade mundial, fundamentadas na soberania nacional.

Consta que ainda tentou falar com o próprio Trump como postura de alguém que nunca foi de armas — nem como militar nem como terrorista, é respeitador da legalidade da justiça civil mesmo sendo aprisionado injustamente — e que cultiva pessoalmente a empatia social como a amorosidade familiar. Não é radical, pois é social democrata autêntico e convicto, como vem demonstrando.

A ONU foi constituída ao término da Segunda Grande Guerra após o lançamento de duas bombas atômicas sobre o Japão, com o nobre objetivo de que tais conflitos de dominação econômica e política não mais recorressem à força bruta das armas nem à discriminação ideológica, mas, sim, à Ordenação da Lei Internacional expressa na Carta das Nações Unidas. Mas, infelizmente, ela serve como princípio, não como norma.

Não pudemos evitar a Guerra Fria com a cláusula absurda do direito de retaliação nuclear simultânea, que só fez expandir a indústria de armamentos, nem a Guerra da Coreia e a de Vietnã, o bloqueio de Cuba e a ocupação militar do Panamá em 1989. Hoje, corremos o risco das big techs influenciando a opinião pública nas eleições como fonte do poder, se aliando às atividades escusas e enganosas para ludibriar as massas.

Apostemos nos novos tempos com esperança na sanidade da humanidade e no bom encaminhamento do progresso técnico e científico, seguindo as normas de soberania legítima e de democracia verdadeira. Oxalá, a nova era ainda a iniciar-se no século 21 leve em conta esses fatores no sentido de propostas criativas para problemas velhos.

 

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