Editorial

Visão do Correio: Uma experiência do usuário cada vez pior

Se antes éramos reféns dos canais de TV por assinatura, passamos a ter liberdade de escolha com o sempre disponível catálogo da Netflix, Max, Prime etc.

Quando o mundo dos streamings surgiu, houve amplo reconhecimento à mudança no paradigma do consumo do conteúdo audiovisual trazida por essas plataformas. Se antes éramos reféns dos canais de TV por assinatura, que na maior parte das vezes ofereciam muitas produções que sequer eram de nosso interesse, passamos a ter liberdade de escolha com o sempre disponível catálogo da Netflix, Max, Prime etc.

A grande vantagem também era a possibilidade de consumir aquilo que nos interessava de maneira personalizada. Poder escolher entre as opções dublada e legendada e, até mesmo, a fonte, tamanho e cor da tradução simultânea. O conteúdo sob demanda destruiu o modelo de negócio das grandes operadoras de TV a cabo, hoje tão atrasadas quanto as velhas locadoras.

No entanto, o que parece acontecer nos últimos anos com a maior parte dos streamings é uma inversão da lógica de prevalência inegociável da melhor experiência do usuário. Ao mesmo tempo que passaram a vender publicidade nos planos mais baratos de seus serviços, as plataformas oferecem, cada vez menos, qualidade. São frequentes as quedas de sinal, sobretudo em momentos de alta de audiência, como finais de competições de futebol, novelas ou realities shows.

Ao adotar a venda de espaços publicitários e comercializar a atenção do seu usuário, as plataformas abrem mão do que era o principal diferencial do serviço: uma experiência amigável a quem paga por aquela assinatura. Não se trata de inovação de um modelo de negócio já milionário, mas de retrocesso.

Os olhos mais especializados em conteúdos audiovisuais já entenderam que a crise entre os serviços e seus clientes vai além e já atinge a própria qualidade das produções em cartaz. O cardápio continua farto, mas não mais com a mesma assertividade de outrora. Tudo parece feito para cérebros cada vez mais sedentos por respostas prontas, por uma conclusão sem reflexão.

O mundo repercutiu, por exemplo, os episódios finais da decenal série Stranger things, criada pelos irmãos Matt e Ross Duffer. Se no início a produção ficou marcada por trazer a temática do terror e do suspense sob uma ótica infantojuvenil e nostálgica, sua despedida teve muito mais caráter saudosista do que uma trama que realmente sustentasse algo novo. Ainda que no cinema a última impressão nem sempre é a que fica, o desfecho deixou a desejar para a maioria.

A decepção com Stranger things se estende a muitas outras produções que parecem durar muito mais do que deveriam. Mais do que dar respostas e preencher lacunas, o cinema deve incentivar o imaginário do espectador. A escolha das plataformas de espremer até a última gota dos seus títulos mais reconhecidos é mais uma traição ao prometido ganho de experiência trazido por elas em seus surgimentos há cerca de 15 anos.

São raras decisões como a comunicada pelo diretor Vince Gilligan, conhecido pelos sucessos Breaking bad e seu spin-off, Better call Saul. No comando de Pluribus — ficção de sucesso exibida pela Apple TV, que coloca a protagonista Carol (Rhea Seehorn) em meio a uma humanidade infectada por uma mente coletiva, incapaz de demonstrar qualquer traço de infelicidade —, Gilligan nada contra a corrente e já anunciou: "Vou demorar".

Em uma sociedade faminta por conteúdo a todo momento, diante da velocidade do consumo de informações na palma da mão, é comum cobrarmos que nossos artistas preferidos lancem um álbum por ano ou que nossa série de estimação divulgue logo todos os episódios para iniciarmos a maratona.

Gilligan, no entanto, vai na contramão. Ao Hollywood Reporter, quebrou as expectativas: "Sim, sendo honesto, isso vai frustrar algumas pessoas. Trabalhamos na velocidade em que trabalhamos, muito parecido com o ritmo em que as geleiras derretem. Portanto, haverá um intervalo considerável entre as temporadas", disse.

Um alívio em um mundo no qual a essência sempre perde espaço para o acúmulo.

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