OPINIÃO

O pior das pessoas e o melhor da sociedade

"No fim das contas, a beleza da sociedade não reside na harmonia apática de uma mente universal, mas no caos fascinante de sermos, cada um à sua maneira, essencialmente incompletos"

Ao longo da história, muitos tentaram responder: "o que nos torna humanos?". Sócrates, Platão, Hobbes, Rousseau e Heidegger são apenas alguns dos nomes da filosofia que investigaram a natureza humana. Todos apresentam, obviamente, argumentos importantes e merecem ser estudados. Encanta-me, contudo, uma perspectiva que, embora não seja inédita, trata o tema com extrema sensibilidade: são as nossas falhas que realmente nos tornam humanos.

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Com uma abordagem mais despretensiosa do que os tratados filosóficos, essa versão é apresentada na série Pluribus, em exibição no streaming da Apple TV . Em uma realidade distópica, uma espécie de vírus alienígena faz com que a humanidade compartilhe a mesma consciência. Todos sabem tudo de todos e, nessa nova "mente universal", a humanidade não tem ganância, não deseja explorar a natureza e se preocupa com a integridade de semelhantes a milhares de quilômetros de distância.

À primeira vista, uma invasão alienígena é assustadora e refutável. A personagem principal, Carol (interpretada por Rhea Seehorn), quer apenas que o mundo volte ao normal. Com o passar do tempo, contudo, a mulher percebe a importância da companhia desses novos seres disfarçados de humanos.

Talvez nem seja o ponto principal da produção, mas tive uma pequena epifania ao acompanhar a história: uma versão "perfeita" da sociedade não seria tão positiva assim. Se os diversos problemas sociais — como violência, desigualdade, insegurança econômica e mudanças climáticas — fossem superados assim "do nada", um importante traço da identidade humana seria perdido.

Acredito que uma sociedade não tem "personalidade" (característica inerente ao indivíduo), mas possui, sim, uma aura. Ela é invisível a olho nu, mas pode ser sentida e percebida. Cada grupo de seres humanos que se unem em uma comunidade, um bairro, uma cidade, um país ou um planeta terá essa espécie de sombra, que se move conforme os nossos movimentos; não tem vida sem nós, mas existe ao nosso lado.

Essa aura, por mais curioso que pareça, não surge somente dos nossos melhores momentos. Cada pessoa, em seu ápice ou declínio, adiciona uma camada a essa "característica social". A série me fez pensar que o significado da palavra "sociedade" não é apenas um "agrupamento de seres que convivem em estado gregário e em colaboração mútua".

Sociedade também é sobre ter individualidade. É a soma de cada indivíduo, com o seu melhor e o seu pior. Refletir sobre o tema é fundamental porque retira o peso das nossas faculdades mentais. Se você fosse perfeito, nossa comunidade não teria razão de ser; não teria vida.

Em 2026, é seguro afirmar que não vivemos em um estado gregário apenas para sobreviver. Tecnologias e ferramentas garantem a subsistência mesmo que cada uma das 8,3 bilhões de pessoas ocupasse 8,3 bilhões de planetas sozinha. Portanto, a perfeição talvez, seja o nosso maior pesadelo. Ao aceitarmos nossas falhas e, nossa individualidade, preservamos o que há de mais vibrante na experiência coletiva. No fim das contas, a beleza da sociedade não reside na harmonia apática de uma mente universal, mas no caos fascinante de sermos, cada um à sua maneira, essencialmente incompletos.

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