
Recentemente, debrucei-me sobre os conteúdos da comunidade Mentaleria, desenvolvida em Brasília, cujo foco é capacitar profissionais para realizar atendimentos de pessoas em crise psíquica de maneira humanizada e qualificada. Uma das pautas discutidas diz respeito à relação intrínseca entre desigualdade social e sofrimento mental, na qual a provocação central se desenrola a partir da pergunta: é possível estar emocionalmente saudável quando se vive na escassez.
A reflexão veio à tona durante uma conversa que tive com o psicólogo Filipe Willadino, para uma reportagem acerca dos gargalos na assistência à saúde mental. O profissional, lotado no Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) II do Paranoá, destacou a importância de a equipe agir sobre fatores sociais que catalisam o sofrimento, como a violência e a marginalização.
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"Para mudar esse cenário de adoecimento, não basta atender individualmente em consultório. É preciso se articular com redes de proteção, por exemplo, buscando um trabalho de cuidado integrado", contou-me Willadino, reforçando uma constatação que deveria ser óbvia e que responde à pergunta feita no início deste texto. Falar de saúde mental sem discutir desigualdade social anula as raízes estruturais do sofrimento.
Vejamos o seguinte exemplo: Melissa é uma mulher de 28 anos que trabalha como atendente em uma loja de departamento. Moradora de uma região periférica do DF, ela precisa, seis dias por semana, acordar antes do amanhecer e pegar duas conduções para chegar ao serviço. A remuneração, baixa, contempla apenas gastos essenciais, incluindo os cuidados com a filha pequena. Melissa é mãe solo e sua rede de apoio, escassa. O cansaço constante tem refletido em sua produtividade no trabalho, conforme alertou seu gestor.
Sigamos. Na região administrativa onde mora, a mulher procurou atendimento médico especializado em psiquiatria, mas entrou em uma lista de espera. O sistema de saúde, segundo lhe disseram, está sobrecarregado. Diante de um sofrimento que se prolongava, a atendente conseguiu, com muito esforço financeiro, uma consulta particular, onde recebeu o diagnóstico de depressão e ansiedade. Além de uma receita médica, Melissa saiu da clínica com a recomendação de procurar terapia e fazer exercícios físicos. "Autocuidado é primordial", reforçou-lhe o médico. Mas, meses depois, o sofrimento, quem diria, continuava.
Voltemos. Apesar de, aqui, Melissa ser uma personagem fictícia, cruzamos, todos os dias, com perfis semelhantes aos seus, mesmo sem perceber. E não percebemos porque caímos no conto do vigário de que sofrimentos como os dela, permeados por vulnerabilidades sociais, são individuais. É conveniente à sociedade e às instituições apenas diagnosticar um transtorno em vez de compreender que os infortúnios de uma pessoa são também respostas possíveis a uma realidade de precarização.
Não se trata de ignorar as particularidades de um indivíduo com depressão, ansiedade ou qualquer outro transtorno, tampouco negar os fatores biológicos que permeiam essas condições. Mas é indispensável olhar, de maneira crítica, para os fatores estruturais que influenciam nesse processo de saúde.
Daí a importância de serviços como os disponibilizados nos CAPS que — mesmo com todo o sucateamento — tentam acolher seus pacientes com um olhar humanizado e integral. Como desabafou outro profissional, tiram "leite de pedra". Diante disso, vale, mais uma vez, reforçar o óbvio: não se garante cuidado social e coletivo sem investimentos.

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