A crise diplomática em torno da Groenlândia, que até recentemente poderia ser interpretada por observadores otimistas como uma tática agressiva de negociação comercial, assumiu contornos de ruptura institucional irreversível nos últimos dias. A exposição das mensagens enviadas pelo presidente francês, Emmanuel Macron, ao mandatário dos Estados Unidos, Donald Trump, escancarou as tensões transatlânticas. Afinal, o republicano não se deu ao trabalho de responder. Resolveu colocar na sua rede social, nesta terça-feira, o apelo de Macron pelo diálogo sobre a soberania do território europeu.
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Ao abrir para o mundo a tentativa de Macron, Trump ainda retirou as cortinas dos bastidores do poder atual. Não existem conversas organizadas, tratamentos engenhosos ou nada do tipo. Apenas ausência de diálogo e ameaças. Ainda na tentativa de aumentar a pressão sobre a França, o presidente estadunidense sugeriu impor uma tarifa de 200% sobre as exportações de vinho e champanhe franceses para os EUA. Nesse caso, em razão da recusa de Macron em participar do Conselho da Paz em Gaza. Em resposta, o francês disse que prefere "o Estado de Direito à brutalidade".
Diante da situação, a primeira-ministra da Dinamarca, Mette Frederiksen, alertou que "o pior está por vir". Não é fatalismo, mas, sim, um diagnóstico realista de quem compreendeu a natureza da ameaça. Ao reiterar ser "impossível negociar valores fundamentais" com Washington, Frederiksen traçou uma linha vermelha que a Europa, até então, hesitava em desenhar. A soberania, o direito internacional e a lealdade entre aliados não são mercadorias sujeitas à flutuação cambial ou a tarifas punitivas.
Nesse tabuleiro de xadrez cada vez mais perigoso, a contraofensiva de Copenhague carrega uma ironia trágica e uma astúcia estratégica. A proposta dinamarquesa de instalar uma presença permanente de tropas da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) no Ártico expõe o paradoxo existencial da aliança: o pedido de socorro militar visa proteger um membro da Otan não de uma ameaça russa ou chinesa, mas das ambições do próprio país que lidera o bloco.
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Se tal medida for adiante, a Otan se verá diante de um dilema. Tropas europeias seriam mobilizadas para garantir que a bandeira de um aliado não seja cravada por força de coerção econômica do outro — como o perfil oficial da Casa Branca sugeriu em publicação recente. É o cenário de pesadelo que nenhum estrategista da Guerra Fria ousaria prever.
A exposição da mensagem privada enviada por Macron a Trump serve, portanto, como o catalisador de uma desconfiança que vinha sendo represada. Se a Casa Branca está disposta a atropelar aliados históricos em nome de uma visão transacional da geopolítica, o conceito de "Ocidente" como uma comunidade de valores democráticos corre o risco de dissolução.
O momento exige frieza e cálculos das chancelarias europeias — e do Itamaraty, por consequência. A disputa pela Groenlândia deixou de ser uma questão bilateral para se tornar o teste definitivo da resiliência das instituições multilaterais. Como bem alertou a premiê dinamarquesa, o pior cenário não é mais uma hipótese distante. É imperativo que a prudência prevaleça sobre a ambição, para evitarmos um mundo em que a força bruta volte a ditar as regras.
