Com quatro indicações ao Oscar, O agente secreto não é apenas um êxito artístico. É um marco histórico. O filme de Kleber Mendonça Filho consolida um novo patamar do cinema brasileiro, que deixou de ser tratado como promessa periférica ou surpresa exótica para ingressar no espaço central da indústria global do audiovisual. Melhor filme, Melhor filme internacional, Melhor escalação de elenco e Melhor ator, para Wagner Moura — o conjunto das nomeações traduz, em linguagem de prestígio internacional, aquilo que o público brasileiro já vinha percebendo: há uma retomada consistente, madura e competitiva das nossas produções, capaz de dialogar com o mundo sem renunciar às nossas raízes.
O feito fica ainda maior quando se olha o caminho percorrido nas últimas três décadas e meia. O cinema nacional atravessou, no início dos anos 1990, um dos momentos mais traumáticos de sua história recente, com o desmonte da Embrafilme no governo Fernando Collor. O "enterro" da empresa simbolizou o fim de um modelo estatal de fomento e distribuição e a interrupção abrupta de uma estrutura industrial ainda frágil, que dependia de políticas públicas para existir. O resultado era previsível: produção rarefeita, salas dominadas pela lógica dos blockbusters americanos e uma geração inteira obrigada a improvisar sua sobrevivência artística em condições adversas.
Desde então, o cinema brasileiro traçou uma rota de reconstrução. Não por mágica, nem por sorte, mas por uma combinação de talento acumulado, resiliência cultural e políticas públicas que, com altos e baixos, reergueram os pilares de um setor estratégico. O cinema não é apenas entretenimento, representa trabalho, economia, tecnologia, linguagem, memória e identidade. Países que se levam a sério não terceirizam seu imaginário.
O sucesso internacional de O agente secreto é uma prova disso. Ao mesmo tempo em que expõe uma parte profunda do Brasil real — suas contradições, seus traumas, seus subterrâneos sociais e políticos —, o filme demonstra que a universalidade nasce da coragem de encarar o próprio território. A arte se torna universal quando se recusa a ser genérica. E o Brasil, quando se olha sem filtro, produz obras que atravessam fronteiras por reconhecerem a complexidade da condição humana: corpo, linguagem, medo, desejo e poder.
Sim, há controvérsias. O debate sobre financiamento público e incentivos à cultura tem sido sequestrado, muitas vezes, por caricaturas ideológicas. Há quem finja acreditar que cinema se faz sozinho, apenas com "mão invisível", como se fosse um produto industrial padronizado, sem risco e sem competição desigual. Há também, do outro lado, quem trate política cultural como dogma, sem transparência e sem discussão de eficiência. Entre essas duas simplificações, o cinema brasileiro aprendeu a combinar fomento, coprodução, mercado interno, circulação internacional e profissionalização técnica para avançar.
O orçamento de O agente secreto, com participação de recursos públicos e privados e apoio de coprodutores estrangeiros, não é exceção: é o padrão do cinema contemporâneo. Esse arranjo permite que a cinematografia nacional, diante das nossas desigualdades profundas e concentração de renda histórica, alcance outro patamar sem ser sufocado por uma máquina como Hollywood. A polêmica só se mantém viva porque parte do público brasileiro ainda não compreendeu que cultura é investimento. É política de Estado, não favor aos artistas.
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