ARTIGO

Alfabetização como alicerce para o futuro da América Latina

A América Latina está partindo para a ação coordenada, consolidando um pacto transnacional robusto para transformar a alfabetização em uma estratégia central de desenvolvimento

David Saad diretor-presidente do Instituto Natura para a América Latina; Anna Penido diretora-executiva do Centro Lemann de Liderança para Equidade na Educação

Em 24 de janeiro, os olhares se voltaram para o Dia Internacional da Educação. Instituída pela Assembleia Geral das Nações Unidas, a data não é apenas um momento de celebração, mas um chamado à responsabilidade coletiva. Esse dia ressoa com uma força particular na América Latina, visto que a região pulsa potencial, mas ainda luta para romper desigualdades e promover equidade e inclusão educacional. Para quebrar esse ciclo e colocar os países latino-americanos em um caminho de desenvolvimento pleno, a ferramenta mais poderosa é a alfabetização na idade certa.

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O cenário é desafiador, mas o filme projetado para o futuro dá esperanças. Dados do  Estudo Regional Comparativo e Explicativo (Erce 2019 ), da Unesco, revelam uma realidade que não pode ser ignorada: mais de quatro em cada 10 estudantes (44%) na América Latina e Caribe não possuíam o nível adequado de aprendizagem em leitura e escrita. Essa realidade configura o que alguns especialistas chamam de "pobreza de aprendizagem".

Apesar disso, no Encontro Regional do Movimento pela Compreensão Leitora na América Latina, realizado em dezembro de 2025, ficou evidente que a região está transpondo a fase do diagnóstico e partindo para a ação coordenada, consolidando um pacto transnacional robusto para transformar a alfabetização em uma estratégia central de desenvolvimento.

Esse é, também, um dos propósitos dos movimentos realizados pelo Instituto Natura, em parceria com o Centro Lemann e apoio da UBS Optimus Foundation. A articulação faz parte de uma jornada iniciada em 2024 que contou com diversos encontros, além de uma visita à cidade de Sobral (CE), referência em políticas públicas eficazes na área da alfabetização, e duas imersões, uma na Argentina, nas províncias de Entre Rios e Santa Fé, e uma no Espírito Santo, estado brasileiro que vem se destacando em iniciativas em regime de colaboração e tem avanços importantes já alcançados.

O Brasil tem papel de destaque nessa história regional. Com a implementação do Compromisso Nacional Criança Alfabetizada, o país estabeleceu metas estruturantes, buscando atingir 64% de alfabetização no 2º ano do ensino fundamental. Os frutos dessa política de Estado começam a aparecer: o Indicador Criança Alfabetizada (ICA), divulgado pelo Ministério da Educação em 2025, alcançou 59,2% — marca muito próxima da meta estabelecida e que aponta melhoria nos resultados de alfabetização.

Na Argentina, o Plan Nacional de Alfabetización foi oficializado em 2024 e pactuado no Conselho Federal de Educação, com compromissos assumidos pelas 24 jurisdições e avaliações específicas, como o Aprender Alfabetización 2024, instituído e aplicado no 3º ano, que oferece linha de base para orientar intervenções, monitorar avanços e dar visibilidade ao tamanho do desafio, especialmente onde as desigualdades mais incidem.

O Chile vive um momento importante com o Compromiso Nacional por el Aprendizaje Lector, impulsionado pela rede Por un Chile que Lee, que projeta que todas as crianças chilenas estejam lendo compreensivamente até 2030. Além disso, México, Peru e Colômbia têm demonstrado movimentos relevantes pela causa.

A consolidação dessa trajetória requer o fortalecimento de um espaço de diálogo regional para promover convergências em ação coletiva, solidificar compromissos públicos e aprimorar os mecanismos de monitoramento, voltando-se, primordialmente, para a garantia da equidade na implementação de políticas educacionais em larga escala.

Esses países têm adotado estratégias interessantes, tais como diagnósticos periódicos, o estabelecimento de metas, formação docente e de gestores escolares voltada à prática e o desenvolvimento de materiais estruturados e apoio pedagógico. O estágio atual convida à aceleração do aprendizado mútuo. Por meio do intercâmbio de boas práticas, da comparação técnica de indicadores e da redução das disparidades entre redes de ensino, busca-se construir um repertório regional robusto. O objetivo é permitir que cada nação avance com maior celeridade e eficiência, beneficiando-se da experiência compartilhada.

Ciclos eleitorais não podem significar retrocessos em políticas educacionais que estão funcionando. É preciso um compromisso coletivo firme, especialmente dos tomadores de decisão, para assegurar que a alfabetização seja uma política de Estado permanente.

A América Latina tem a chance histórica de avançar em sua própria trajetória. Que, com ações coordenadas e transnacionais, os países sigam colocando a alfabetização como o coração da estratégia. Somente assim, a realidade de milhões de crianças será transformada, e avanços reais estarão garantidos. O futuro está sendo escrito agora, letra por letra, palavra por palavra, em cada sala de aula do continente.

 

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