Natália Gonçalves — pós-doutora em ciências com foco em genética pela USP e superintendente de Pesquisa & Desenvolvimento e Novos Produtos na Dasa
As grandes ameaças infecciosas do nosso tempo não surgem com aviso prévio — mas deixam sinais. Febres inexplicadas, surtos localizados, vírus que ainda não têm nome. O que define se esses sinais vão se transformar em crises globais é a capacidade de enxergá-los cedo, interpretá-los corretamente e agir rápido.
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É exatamente isso que o estudo intitulado Robust mission-driven responses to infectious disease threats delivered by the Abbott Pandemic Defense Coalition (Respostas robustas e focadas em missões contra ameaças de doenças infecciosas oferecidas pela Coalizão de Defesa à Pandemias da Abbott", em tradução livre), publicado recentemente no International Journal of Infectious Diseases, mostra de forma concreta: a vigilância científica, quando organizada em rede e sustentada por parcerias de longo prazo, deixa de ser apenas um conceito e passa a produzir resultados mensuráveis.
Desde 2021, a coalizão internacional estruturou uma das maiores iniciativas globais de detecção precoce de ameaças infecciosas. Em apenas quatro anos, a rede composta por dezenas de instituições de saúde, públicas e privadas, em mais de 20 países, avaliou mais de 39 mil amostras clínicas, identificou seis surtos relevantes e caracterizou 23 vírus até então desconhecidos em humanos — um feito que, isoladamente, já redefine o patamar da vigilância epidemiológica moderna. Mas, talvez, o dado mais revelador não esteja apenas nos números, e, sim, no método.
Historicamente, a resposta a surtos de saúde sempre foi fragmentada: cada país com seus protocolos, cada centro de pesquisa com suas limitações técnicas e orçamentárias. O estudo mostra um movimento diferente. Ao integrar hospitais, universidades, laboratórios públicos e privados, centros de sequenciamento e ministérios da saúde, a iniciativa criou um modelo em que dados clínicos, genômicos e epidemiológicos circulam com velocidade, reduzindo o tempo entre a detecção e a ação.
Na prática, isso significou, por exemplo, identificar precocemente surtos de oropouche na Colômbia, de ebola em Uganda, e de hepatite E no Sudão do Sul, não apenas confirmando a presença dos agentes, mas permitindo respostas mais rápidas das autoridades sanitárias.
Esse tipo de articulação muda a lógica da saúde pública: a ciência deixa de atuar apenas de forma reativa e passa a operar de modo antecipatório.
Um dos aspectos mais relevantes do trabalho é a aposta sistemática em sequenciamento genômico de nova geração e em ferramentas de bioinformática aplicadas a casos que, à primeira vista, pareciam "negativos" nos testes convencionais. Foi justamente nesse espaço — o das amostras sem diagnóstico claro — que surgiram descobertas decisivas, como novos vírus e variantes com potencial de impacto global.
O desenvolvimento e a distribuição rápida de testes diagnósticos experimentais para patógenos emergentes, descritos no artigo, são um exemplo concreto disso. Em alguns casos, essas ferramentas foram decisivas para orientar respostas de saúde pública e acelerar o entendimento sobre novos surtos.
Essa abordagem amplia o conceito de vigilância. Não se trata apenas de contar casos conhecidos, mas de mapear o desconhecido antes que ele se torne uma crise.
Ao mesmo tempo, o estudo mostra que ciência de ponta só é sustentável quando caminha junto com formação de pessoas. Mais de 120 pesquisadores foram treinados em epidemiologia, diagnóstico molecular, sequenciamento e análise de dados, criando um legado que vai além dos artigos publicados: uma nova geração de profissionais capacitados para responder às próximas emergências.
O estudo deixa uma mensagem que vai além do campo das doenças infecciosas. Ele aponta para um caminho possível para a ciência contemporânea: menos silos, mais redes; menos dependência de respostas tardias, mais investimento em inteligência preditiva.
Em um mundo em que vírus atravessam continentes em horas, nenhuma estratégia nacional isolada é suficiente. A segurança sanitária passa, inevitavelmente, por alianças científicas internacionais, capazes de unir dados, tecnologia e pessoas em torno de um mesmo objetivo: reduzir o impacto das epidemias antes que elas se tornem pandemias.
Ao mostrar resultados concretos — surtos detectados, vírus descobertos, profissionais formados e sistemas fortalecidos —, o trabalho publicado agora oferece algo raro no debate sobre preparação para pandemias: evidência de que colaboração bem estruturada funciona.
E, talvez, essa seja a principal lição: quando a ciência se organiza em rede, ela não apenas reage melhor às crises. Ela chega antes delas.
