ARTIGO

Brasil avança na prevenção da bronquiolite com novo imunizante no SUS

Oferta do nirsevimabe a bebês mais vulneráveis reforça estratégia do Programa Nacional de Imunizações (PNI) para reduzir casos graves de VSR

opiniao 0302 -  (crédito: kleber sales)
opiniao 0302 - (crédito: kleber sales)

Renato Kfouripediatra infectologista, mestre pela Unifesp, secretário do Departamento de Imunizações da Sociedade Brasileira de Pediatria e vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações

Fique por dentro das notícias que importam para você!

SIGA O CORREIO BRAZILIENSE NOGoogle Discover IconGoogle Discover SIGA O CB NOGoogle Discover IconGoogle Discover

O Programa Nacional de Imunizações (PNI) detalhou, no último dia 20, como se dará a oferta de um novo imunizante contra o vírus sincicial respiratório (VSR) no Sistema Único de Saúde (SUS), marcando um avanço relevante na estratégia de prevenção da bronquiolite no Brasil. O nirsevimabe é um anticorpo monoclonal indicado para a prevenção de infecções respiratórias graves em bebês causadas pelo VSR e estará disponível, a partir deste mês, para a proteção de bebês mais vulneráveis às formas graves da doença — todos os prematuros e/ou com comorbidades definidas no Protocolo de Uso do imunizante aprovado.

Siga o canal do Correio no WhatsApp e receba as principais notícias do dia no seu celular

A bronquiolite é hoje uma das principais causas de hospitalização de crianças pequenas no país. Em 2025, tivemos uma temporada crítica da doença: entre fevereiro e junho, as hospitalizações de crianças menores de 1 ano cresceram 36% em relação a 2024 e 71% em relação a 2023, segundo dados do OpenDataSUS. Mais grave ainda, quase um terço desses bebês necessitou de internação em UTI, evidenciando o peso da doença sobre as famílias e a rede hospitalar.

Essa escalada de casos, principalmente durante a sazonalidade do vírus — que pode durar de janeiro até agosto, a depender da região do Brasil —, pressiona hospitais, amplia custos para o sistema de saúde e gera um impacto silencioso para milhares de famílias que enfrentam a internação de seus filhos ainda nos primeiros meses de vida. Nesse contexto, a definição de um protocolo nacional de prevenção representa um passo importante para antecipar riscos e reduzir desfechos graves.

A incorporação do nirsevimabe no SUS é inicialmente voltada a bebês prematuros e com comorbidades, seguindo a lógica de priorizar grupos de maior risco clínico. Porém, mesmo a prematuridade e a existência de doenças crônicas sendo fatores para aumento do risco de complicações por infecções pelo vírus, a maioria das hospitalizações ocorre em bebês saudáveis e nascidos a termo, o que reforça a complexidade do desafio e a importância de monitorar continuamente os impactos das novas estratégias ao longo de sua implementação.

A experiência internacional oferece evidências relevantes sobre o potencial dessa tecnologia. No Chile, que decidiu oferecer o imunizante a todos os bebês, independentemente de serem prematuros ou a termo, os resultados publicados no The Lancet Infectious Diseases foram expressivos: houve redução de 76% nas hospitalizações por VSR, de 85% nas internações em UTI pediátrica e, mais importante, nenhuma morte relacionada ao VSR registrada em bebês menores de 1 ano no primeiro e segundo ano de adoção da estratégia de imunização — em 2023, antes da implementação, o Chile teve 13 mortes relacionadas a doença.

Na Europa, dois países também são exemplos: Espanha e França. Na França, um estudo multicêntrico reportou efetividade de 83% contra hospitalizações e até 81% contra internações em UTI em bebês que receberam o imunizante. Já na região da Galícia, na Espanha, dados mostraram redução de 82% nas hospitalizações por VSR já na primeira temporada, com impacto semelhante em atendimentos de emergência e UTI. Além dos efeitos imediatos, dados mais recentes também indicam benefícios sustentados da prevenção precoce: para crianças que foram imunizadas na temporada anterior, o imunizante está associado a 55% menos hospitalizações por VSR na segunda temporada, 62,4% menos hospitalizações recorrentes por infecção respiratória do trato respiratório inferior e 76,9% menos internações recorrentes por bronquite ou bronquiolite aguda. Esses achados demonstram a capacidade do imunizante de contribuir com a preservação do desenvolvimento pulmonar saudável e redução da morbidade ao longo da primeira infância.

Esses dados de mundo real indicam que a prevenção do VSR pode gerar benefícios que vão além da proteção individual, contribuindo para a sustentabilidade dos sistemas de saúde. Cada hospitalização evitada significa menos pressão sobre leitos, menor uso de recursos de alta complexidade e mais previsibilidade para o planejamento assistencial. Para as famílias, representa menos sofrimento, menos afastamento do trabalho e menos impacto emocional nos primeiros meses de vida da criança.

A definição do protocolo pelo PNI inaugura, portanto, uma nova etapa no enfrentamento da bronquiolite no Brasil. Trata-se de um avanço concreto, baseado em evidências científicas e alinhado às melhores práticas internacionais, que amplia as ferramentas disponíveis para proteger bebês contra uma das principais causas de internação pediátrica no país. A forma como essa estratégia será implementada e avaliada ao longo do tempo será decisiva para consolidar seus benefícios e orientar os próximos passos da política pública de prevenção do VSR no país.

 

  • Google Discover Icon
Por Opinião
postado em 03/02/2026 06:00
x