
Marcela Ribeiro — jornalista
Há algo profundamente violento no modo como aprendemos a viver neste tempo. Não uma violência explícita, mas uma violência elegante, eficiente, quase indolor. Ela não censura, não proíbe, não cala à força. Ao contrário, permite tudo. Fala-se de tudo, o tempo inteiro. O resultado, paradoxal, é o esvaziamento generalizado do sentido.
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A sociedade contemporânea não enfrenta uma crise de informação, mas uma crise das condições que tornam o pensamento possível. Pensar exige tempo, continuidade, silêncio, leitura, hesitação. Tudo aquilo que o presente insiste em destruir. A aceleração não é um efeito colateral do progresso tecnológico; é o seu método pedagógico. Educa-se uma sensibilidade incapaz de sustentar demora, uma cognição treinada para o fragmento, uma subjetividade permanentemente interrompida.
O narcisismo, hoje, não é uma patologia individual, mas um princípio organizador. Vive-se sob a obrigação da exposição constante. A vida só parece legítima quando visível, registrada, compartilhada. A experiência perde valor se não for convertida em imagem, a opinião se torna irrelevante se não provocar reação. O outro deixa de ser alteridade e passa a ser audiência. O eu se expande enquanto o mundo se empobrece.
Nesse regime, a objetificação não se limita aos corpos. Ela atinge as ideias, as lutas, a política. Pautas históricas, construídas com dor, conflito e elaboração coletiva, são transformadas em linguagem de ocasião. Circulam como estética, não como compromisso. O esvaziamento das pautas não ocorre por esquecimento, mas por excesso. Usa-se tanto que se esgota. Repete-se tanto que se neutraliza. A causa vira ornamento simbólico, não instrumento de transformação.
A leitura, prática fundadora de qualquer pensamento complexo, torna-se suspeita. Ler exige atravessar o tempo do outro, submeter-se a uma lógica que não é a própria, aceitar a frustração de não entender de imediato. Em uma cultura narcísica, isso soa quase ofensivo. A informação instantânea ocupa o lugar do conhecimento. Consome-se o mundo em pedaços. Manchetes, cortes, frases soltas, comentários indignados. A sensação de estar informado substitui a experiência de compreender.
Forma-se uma geração que assiste a vídeos em velocidade acelerada, como se até o tempo precisasse ser comprimido para não gerar reflexão. Não se trata de pressa produtiva, mas de incapacidade de permanência. A ideia longa cansa. O argumento contínuo incomoda. O pensamento que exige fôlego é abandonado no meio. Aprende-se a reagir, não a elaborar.
Instala-se, então, um dos traços mais perturbadores do nosso tempo: fala-se de tudo sem saber quase nada. Opina-se sem leitura, julga-se sem escuta, afirma-se sem responsabilidade. A ignorância deixa de ser constrangimento e passa a ser identidade performada.
A globalização intensifica essa dinâmica ao promover a circulação acelerada de conceitos sem lastro histórico. Palavras políticas atravessam fronteiras sem contexto, ideias se repetem como fórmulas vazias, discursos se acumulam sem consequência. Tudo parece urgente por alguns minutos e descartável logo depois. O presente se absolutiza, o passado perde densidade, o futuro se dissolve em slogans motivacionais.
O efeito mais grave desse processo é o colapso da experiência histórica. Sem memória, não há responsabilidade. Sem responsabilidade, não há política. O que resta é uma guerra permanente de narrativas, onde tudo se equivale e nada se compromete. A burrice contemporânea não é ausência de informação, mas incapacidade de relação. Incapacidade de ligar fatos, compreender processos, sustentar causalidades.
Nesse cenário, pensar se torna um gesto inconveniente. Pensar desacelera. Pensar cria ruído onde o sistema exige fluxo. Pensar exige reconhecer ignorância, algo intolerável em uma cultura que premia certezas rápidas. O pensamento profundo passa a ser acusado de elitismo, quando na verdade é apenas recusa à estupidez organizada.
O mal-estar de quem percebe esse tempo não nasce de nostalgia nem de arrogância intelectual. Nasce da lucidez diante de uma sociedade que confunde barulho com liberdade, velocidade com inteligência e exposição com valor. O vazio não é acidente. É método. A distração não é falha. É regime.
Talvez a resistência possível não esteja em disputar todos os espaços, nem em gritar mais alto. Talvez esteja em recuperar pequenas soberanias: ler sem culpa, escrever com rigor, sustentar o silêncio, aceitar a lentidão. Criar zonas de densidade em meio ao colapso. Não como fuga, mas como reocupação do mundo por dentro.
Porque o narcisismo estrutural tem uma fraqueza essencial: ele não sustenta profundidade. Precisa do raso para sobreviver. Qualquer gesto de pensamento longo, qualquer defesa da leitura, qualquer recusa à aceleração fere a lógica do sistema. E é exatamente por isso que ainda importa.
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