Artigo

A sociedade brasileira não se indigna com mortes violentas de pessoas negras?

Para além de ações do poder público, a mudança desse cenário também depende de cada um de nós, ao parar com a ladainha do "não tenho nada a ver com isso porque não mato ninguém" e do "não é comigo, sou aliado na causa contra o racismo"

Ativistas do movimento negro participam de protesto contra o racismo e a violência policial durante o Dia Nacional Contra o Racismo em comemoração aos 133 anos da abolição da escravidão no Brasil, em Brasília, em 13 de maio de 2021 -  (crédito: Sergio Lima/AFP)
Ativistas do movimento negro participam de protesto contra o racismo e a violência policial durante o Dia Nacional Contra o Racismo em comemoração aos 133 anos da abolição da escravidão no Brasil, em Brasília, em 13 de maio de 2021 - (crédito: Sergio Lima/AFP)

ANACLETO COSTA, advogado

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No Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2025, em análise do perfil das vítimas — nos boletins de ocorrência das mortes violentas, registradas pelas Polícias Civis das 27 unidades da Federação —, constata-se que, em 2024, eram 91,1% dos mortos do sexo masculino. Esse dado apresenta variações de acordo com a natureza do boletim de ocorrência (BO): enquanto entre as vítimas de homicídio doloso 89,7% eram homens, entre as vítimas de intervenções policiais as vítimas do sexo masculino compõem 99,2% do total.

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Em relação ao perfil étnico-racial das vítimas, chama a atenção como a distribuição de raça/cor muda de acordo com cada natureza do BO. Se, em média, 79% das vítimas são negras (pretas e pardas), entre as vítimas de latrocínio (roubo seguido de morte), 60,8% são negras e 38,5% são brancas, a maior proporção de brancos entre as naturezas dos documentos analisados.

Já nas mortes em decorrência de intervenções policiais, as pessoas negras representam 82% das vítimas, e as pessoas brancas somam apenas 17,6%. Outra característica que revela a seletividade da letalidade policial no Brasil é o perfil por raça/cor das vítimas, evidenciando a predominância de pessoas negras entre as vítimas de violência fatal, pela polícia, no Brasil.

Para o secretário de Combate ao Racismo da Confederação Nacional dos Trabalhadores do Ramo Financeiro da CUT (Contraf-CUT), Almir Aguiar, em matéria veiculada pela organização, os números não deixam dúvidas sobre a realidade brasileira. "O Anuário escancara o que sempre denunciamos: a violência no Brasil tem cor. A juventude negra, as mulheres negras e até os policiais negros são as maiores vítimas de um sistema que os desvaloriza e os trata como descartáveis. Esses dados comprovam o racismo estrutural que atravessa nossa sociedade e também as instituições de segurança pública. É urgente que o Estado assuma a responsabilidade de enfrentar essa realidade com políticas públicas sérias e ações efetivas de combate ao racismo", afirmou.

Os dados indicam que parcelas de nossa sociedade, incluindo parte das forças policiais, se armou e partiu para a violência em reação à perda de seus privilégios diante da possibilidade de ascensão advinda da luta da população negra por seus direitos e seu espaço. Nesse contexto, na minha visão, aparentemente é  aceitável para a sociedade, para a polícia, matar em nome da manutenção dos privilégios. Tudo isso com a ausência da indignação de boa parte da sociedade brasileira.

Talvez um fio de esperança, para que consigamos uma mudança no reconhecimento do racismo estrutural em nossa sociedade, esteja na recente decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), determinando a adoção, pelo governo federal, de um plano nacional de enfrentamento às violações de direitos da população negra, com políticas públicas voltadas à igualdade racial, com metas, etapas de implantação e monitoramento de resultados. Tudo com a participação ativa do Conselho Nacional de Justiça.

Para além de ações do poder público, a mudança desse cenário também depende de cada um de nós, ao parar com a ladainha do "não tenho nada a ver com isso porque não mato ninguém" e do "não é comigo, sou aliado na causa contra o racismo". Além disso, é preciso buscar não reproduzir — em qualquer grau — o modelo de racismo estrutural em que estamos historicamente inseridos. É um rompimento que demanda não apenas a leitura de livros ou participação em palestras com profissionais que tratam do tema. Não existe diploma de graduação em "Desconstrução" que nos livre facilmente dessa formação. É trabalho para toda uma vida.

Essa qualificação envolve escolas, famílias, sociedade civil e mídia. Sendo um processo lento porque passa pela transformação da visão de mundo. Mas homens e mulheres negros continuam a ser mortos simplesmente por serem negros no século 21. Portanto, não temos o luxo de contar com esse tempo. Posar de espectador inocente enquanto a engrenagem que nos formou continua triturando vidas diante de nossos olhos é ser cúmplice.

Se a cada negro assassinado, seguimos reagindo com choque performático e, no dia seguinte, voltamos a tolerar as mesmas notícias, então somos parte ativa da continuidade desse horror. Ou rompemos com essa pedagogia da crueldade (reconhecendo nossos iguais, desnaturalizando nossas desculpas), ou continuaremos assistindo ao massacre cotidiano como tragédia inevitável. Quando, na verdade, é apenas o reflexo mais brutal do mundo que, todos nós, sem exceção, insistimos em manter de pé.

 

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postado em 07/02/2026 06:02
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