ARTIGO

Claudio M. Valentinetti, é tudo verdade

Claudio, igualmente como a sua tia Lina Bo Bardi, adotou o Brasil como a sua pátria de escolha e fazia questão de manter viva a irreverência, o sarcasmo e o humor.

cinema opini -  (crédito: kleber)
cinema opini - (crédito: kleber)

AURÉLIO MICHILES, cineasta e documentarista

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"Eu era viciado, sim, em Cinema Novo"

(Claudio M. Valentinetti)

31 de Janeiro, dia triste. Perdi um amigo, meu compadre Claudio M. Valentinetti. Não consigo escrever sobre o Claudio M. Valentinetti sem falar da Lina Bo Bardi, a sua tia. A Lina, foi uma singular e excepcional arquiteta que não somente marcou a arquitetura brasileira, mas também influenciou diversas pessoas que tiveram contato direto com ela, não somente naquilo que se refere a arquitetura, pessoas de diversas áreas das artes e da cultura: Glauber Rocha, Caetano Veloso, Gilberto Gil, José Celso Martinez Corrêa, Maria Bethânia, Helio Eichbauer, Rubens Gerchman, esses são alguns deles.

Estudante de arquitetura na Universidade de Brasília (UnB), tive a sorte de conhecer a Lina Bo Bardi; melhor, a Lina me adotou como amigo. Um dia em São Paulo, início dos anos de 1970, liguei pra ela, que me respondeu: "Venha aqui em casa comer um feijão, tomar uma caipirinha e conhecer o Claudio". Não fazia ideia de quem era a figura, mas, quando entrei na Casa de Vidro-Morumbi, ali estava o Claudio, sobrinho, filho da Graziela. Ficamos amigos de cara. Foi um almoço que virou jantar, onde havia descoberto um irmão perdido desde a Amazônia, Milão, Roma, Bahia…

A Lina era recém-formada em arquitetura na Itália, como ela costumava dizer, "tudo se destrói e nada se constrói". Era a Segunda Guerra, o fascismo impunha uma ditadura odiosa sobre o país, ao mesmo tempo em que caiu em suas mãos a publicação Brazil builds: architecture new and old, 1652-1942. Lina descobriu que existia um lugar em que  se construía, e melhor, com uma excelente arquitetura. Após a guerra, ela teve a oportunidade de vir ao Brasil e aqui chegou acompanhada do seu marido, o professor Pietro Maria Bardi. Tudo mudou.

Lina foi uma espécie de "viajante", aqueles europeus que desembarcaram por aqui, naturalistas, artistas que documentavam flora e fauna e o cotidiano do Brasil no século 19. Aqueles "viajantes", de alguma forma, tinham o viés do preconceito europeu, ao contrário da Lina, que assimilou, influenciou e foi influenciada. Quando voltava para a Itália, o adolescente Claudio se encantava com aquela tia corajosa e irreverente contando histórias de toda ordem, sobre costumes, sabores e transgressões brasileiras. Foi, daí, sem dúvidas que Claudio já começava a trocar o curso de medicina pelo jornalismo, pensando um dia visitar o país "descoberto" pela tia.

Em um dos seus diários, Lina registrou o encontro que teve com Darcy Ribeiro. Ele lhe havia feito o convite para integrar o corpo docente pioneiro da UnB, mas, infelizmente, não deu certo. Hoje, visto de um outro ângulo da história, Claudio prefigura e realiza o sonho da sua tia. Curiosamente ou premonitoriamente nesse mesmo diário, Lina registra com desenhos a sua participação na locação e nas filmagens de Deus e o diabo na terra do sol, de Glauber Rocha. Anos depois, Claudio fez do Cinema Novo e do Glauber Rocha a sua tese — Glauber, um olhar europeu —, infelizmente pouco conhecido no Brasil.

Claudio, igualmente como a sua tia Lina Bo Bardi, adotou o Brasil como a sua pátria de escolha e fazia questão de manter viva a irreverência, o sarcasmo e o humor. Sem dúvida, a sofisticação  também foi característica desse brasiliense por opção.

Formado em literatura moderna pela Universidade de Milão em outubro de 1975, com uma tese sobre o Cinema Novo brasileiro, foi  crítico de cinema e jornalista. Dedicou uma monografia ao cineasta brasileiro Alberto Cavalcanti, em coautoria com Lorenzo Pellizzari. Claudio também traduziu obras, do espanhol e do português para o italiano, de João Ubaldo Ribeiro, Inacio Loyola Brandão, Márcio Souza, Jorge Amado, Gabriel García Márquez, Carlos Fuentes, Fernando Pessoa  e muitos outros. Publicou livros sobre Eduardo Coutinho, Othon Bastos, Ítala Nandi, Joaquim Pedro de Andrade, Oscar Niemeyer, Orson Welles, Rita Hayworth, Alida Valli …

 Ah, quase esqueci de contar. Claudio e  a companheira Erika fazem uma especial aparição no meu filme Honestino, e com previsão de estreia nacional em 4 junho. 

Compadre, até mais vê.

 


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Por Opinião
postado em 09/02/2026 06:03
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