ARTIGO

Trânsito e trabalho mais violentos

Enquanto os gestores de trânsito debruçam-se sobre os problemas específicos da segurança, há outra dimensão demandando reflexões honestas e providências urgentes. Trata-se da extrema precarização das condições de trabalho dos motofretistas

opiniao 0902 -  (crédito: kleber )
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PAULO CESAR MARQUES DA SILVA, professor da Universidade de Brasília (UnB) e pesquisador do Observatório das Metrópoles 

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Mais que preocupantes, os números da segurança no trânsito do Distrito Federal divulgados, neste mês, pela Agência Brasília são assustadores, em que pese o esforço editorial de destacar a queda de mortes entres ciclistas e pedestres — o que, sem dúvida, é um dado relevante e auspicioso. Todavia, a tendência é outra para as demais categorias de usuários e, para os motociclistas, é uma verdadeira tragédia.

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Logo de saída, convém observar o que disse outro dia, no rádio, uma conhecida comentarista de economia quando analisava despesas públicas: números são como crianças em viagem, devem estar sempre acompanhados. No caso do trânsito, sem prejuízo de análises mais sofisticadas, é recomendável a companhia pelo menos de outros números. Isso porque as variações em dados absolutos podem mascarar os reais comportamentos de um fenômeno. É por isso que mesmo os estudos mais simples sobre segurança no trânsito preferem analisar taxas — como o número de óbitos para cada 100 mil habitantes, ou para cada 10 mil veículos — a valores brutos, como o número total de ocorrências.

Se acompanharmos as notícias da forma bruta como elas nos chegam cotidianamente, concluiremos que o trânsito está cada dia mais violento desde sempre. Mesmo aqueles que já estão há décadas nessa lida têm a tendência de endossar tal percepção. Relembremos, porém, um pouco da história. O ano de 1995 registrou no DF um índice de inacreditáveis 35,5 mortes no trânsito para cada 100 mil habitantes. O valor era tão escandaloso que toda a sociedade se mobilizou, com participação fundamental de veículos de comunicação, como o Correio Braziliense e a TV Globo, e abraçou o programa Paz no Trânsito do então governo Cristovam Buarque, que ficou para sempre marcado pelo respeito à faixa de pedestres e pelo controle e efetiva redução das velocidades. No último ano daquele governo, 1998, o trânsito do DF matou 21,7 pessoas em cada 100 mil habitantes, taxa ainda alta, mas 38,9% menor do que a de três anos antes.

Com algumas oscilações, essa taxa continua caindo e atingiu 7,7 em 2024. Mas o ano passado surpreendeu com 9,0 mortes para cada 100 mil habitantes, um salto inédito de 17,7% em relação ao ano anterior. Os destaques positivos — reduções em 11,1% no número de mortes entre pedestres e em 3,7% entre ciclistas — sem dúvida merecem ser celebrados, embora ainda não estejam claros os motivos da exceção. Entre motociclistas, porém, o número de mortos aumentou inacreditáveis 46,2% em um ano. Variação nessa escala não encontra qualquer precedente na série histórica. É quase 10 vezes a taxa de crescimento da frota de motocicletas no mesmo período, que ficou em 5%.

Muito ainda precisa ser estudado nessas ocorrências para subsidiar intervenções adequadas, sejam elas no sistema viário, nas políticas de fiscalização, nas campanhas institucionais ou em qualquer outra frente. O que é evidente, porém, é que, no ano passado, o ambiente de circulação na capital federal ficou em geral mais violento, e imensamente mais hostil aos motociclistas. É preciso reconhecer que o crescente envolvimento de motociclistas em sinistros graves é um fenômeno comum a todo o país, não apenas ao DF, e que isso vem merecendo a atenção dos órgãos de trânsito tanto nacionais quanto locais, coisa que se reflete na temática das campanhas educativas.

Enquanto os gestores de trânsito debruçam-se sobre os problemas específicos da segurança na circulação viária, há outra dimensão demandando reflexões honestas e providências urgentes. Trata-se do que muitos colegas vêm tratando por economia da morte, e diz respeito à extrema precarização das condições de trabalho dos motofretistas. A falta de regulamentação da atividade desses profissionais leva-os a desafiar as normas do trânsito — e, aparentemente, até duvidar das leis da física — para cumprir o maior número de entregas no menor prazo possível.

Arautos do neoliberalismo chamam isso de empreendedorismo, e a sedução que o pomposo nome enseja parece uma aliada perfeita para o estado de necessidade de subsistência que precisa ser enfrentado por parcela significativa de jovens, excluídos das possibilidades proporcionadas pela economia formal. Às autoridades das mais diversas áreas de atuação e esferas de poder, no entanto, não cabe render-se à mão invisível que ceifa vidas com tamanha voracidade. Uma economia que tem tal dependência da barbárie não pode caber no que conhecemos por civilização. 

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Por Opinião
postado em 09/02/2026 06:00
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