
Eduardo Cursino — especialista em gestão de cidades, desenvolvimento e planejamento estratégico
Eventos climáticos extremos deixaram de ser exceção e passaram a integrar o cotidiano das cidades brasileiras. Chuvas intensas, ondas de calor, ventanias e quedas abruptas de temperatura expõem fragilidades históricas da gestão urbana e cobram dos gestores públicos respostas rápidas, integradas e estruturais. A repetição de cenas de alagamentos, apagões, deslizamentos e prejuízos econômicos não pode mais ser tratada como fatalidade, mas como consequência direta de escolhas ou da ausência delas no planejamento das cidades.
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A crise climática não cria problemas do zero; ela amplifica vulnerabilidades já existentes. Sistemas de drenagem obsoletos, redes elétricas pouco resilientes, ocupações irregulares, falta de manutenção preventiva e ausência de planos de contingência transformam eventos meteorológicos previsíveis em verdadeiras crises urbanas. Quando não há planejamento estratégico, cada tempestade se converte em emergência; cada apagão, em colapso; e cada alagamento, em prejuízo social e econômico.
A queda de energia elétrica é um dos transtornos mais imediatos e visíveis em episódios climáticos extremos. Hospitais operam no limite, sistemas de transporte entram em colapso, o comércio sofre perdas significativas e a população fica sem acesso a serviços essenciais. Em cidades cada vez mais dependentes de sistemas digitais, a interrupção do fornecimento de energia compromete desde a comunicação até a segurança pública. Uma gestão urbana contemporânea exige planejamento energético integrado, com redes mais robustas, manutenção preventiva, protocolos claros de resposta rápida e incentivos à geração distribuída, como a energia solar. Não se trata apenas de reagir ao apagão, mas de antecipá-lo por meio de dados, mapeamento de riscos e decisões estruturais.
Os alagamentos recorrentes talvez sejam o símbolo mais evidente da má gestão urbana diante das mudanças climáticas. O avanço da impermeabilização do solo, a redução de áreas verdes e a ocupação de várzeas e margens de rios diminuem drasticamente a capacidade de absorção da água da chuva. O resultado é previsível: ruas intransitáveis, prejuízos ao comércio, perdas materiais para a população e riscos à vida.
As soluções são amplamente conhecidas e testadas, como drenagem sustentável, parques lineares, jardins de chuva, reservatórios de contenção e recuperação de áreas naturais. O principal obstáculo não é técnico, mas político: priorizar a prevenção exige visão de longo prazo e compromisso com resultados que nem sempre são imediatos ou visíveis.
Cada recurso investido em prevenção representa economia significativa em reconstrução, assistência social e recuperação econômica após os desastres. Ignorar essa lógica é perpetuar um ciclo de emergência permanente, no qual o poder público atua sempre de forma reativa, onerosa e ineficiente. Cidades resilientes são aquelas que planejam antes da crise, e não apenas respondem depois que o dano já está instalado.
Nesse contexto, o uso estratégico de dados e tecnologia deixa de ser um diferencial e passa a ser uma necessidade. Informações meteorológicas, georreferenciamento, sensores urbanos e sistemas de monitoramento em tempo real permitem decisões mais rápidas, precisas e coordenadas. Planos de contingência bem estruturados, treinamentos constantes das equipes técnicas e integração entre secretarias, como defesa civil, saúde, transporte, assistência social e concessionárias de serviços, são fundamentais para reduzir impactos e salvar vidas. A gestão urbana não pode ser fragmentada quando os problemas são sistêmicos.
A comunicação com a população também é parte central da gestão de crises. Informações claras, alerta antecipado e orientações práticas reduzem riscos, evitam o pânico e fortalecem a confiança nas instituições. A ausência de comunicação eficiente amplia a sensação de abandono e desorganização. Ferramentas tecnológicas estão disponíveis, desde alerta por celular até aplicativos e parcerias com a imprensa. O desafio está em usá-las de forma estratégica, coordenada e responsável.
A gestão das cidades diante das crises meteorológicas não é um debate sobre o futuro, mas uma urgência do presente. Persistir em soluções paliativas é aceitar a repetição de tragédias anunciadas. Planejamento estratégico, investimentos em prevenção e uma visão integrada do território são hoje pré-requisitos para qualquer cidade que pretenda ser funcional, resiliente e socialmente justa. Cidades bem geridas não são aquelas que nunca enfrentam crises, mas aquelas que conseguem atravessá-las com menos danos, mais organização e maior capacidade de recuperação. A escolha entre improviso e estratégia já está posta e seus efeitos recaem diretamente sobre a vida de milhões de brasileiros.
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