ARTIGO

Em 2026, os avanços científicos dependem de estratégia, confiança e política pública

Parcerias com a iniciativa privada e políticas públicas capazes de sustentar processos de longo prazo no campo da vacinação são um dos sinais animadores para a saúde pública em 2026

Vacinação contra a dengue  com um imunizante de tecnologia nacional de dose única é fato a se comemorar
 -  (crédito: Paulo Pinto/Agência Brasil)
Vacinação contra a dengue com um imunizante de tecnologia nacional de dose única é fato a se comemorar - (crédito: Paulo Pinto/Agência Brasil)

Dimas T. Covas professor e cientista

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O ano de 2026 começou com sinais animadores para a saúde pública no Brasil. Em um cenário global de desinformação e retrocessos em programas de vacinação, a experiência brasileira trouxe novidades que reforçam uma ideia simples: a inovação só se viabiliza por meio de parcerias com a iniciativa privada e políticas públicas capazes de sustentar processos de longo prazo.

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Uma das conquistas teve início ainda em 2025: a aprovação de um novo ciclo de Parcerias para o Desenvolvimento Produtivo (PDPs), retomando uma estratégia que articula política industrial, regulação e compras públicas. As PDPs recolocam o Complexo Econômico-Industrial da Saúde no centro da agenda de soberania, inovação e segurança sanitária. Em um mundo atravessado por disputas tecnológicas e rupturas em cadeias globais de suprimento, depender de importações para tecnologias críticas é risco sanitário.

Um exemplo emblemático dessa sintonia é o arranjo envolvendo o Instituto de Tecnologia do Paraná (Tecpar), em cooperação com a Sinovac, e a parceria com a Eurofarma para a produção da vacina contra a varicela, além da cooperação com o Tecpar para a produção da vacina contra a raiva humana, ambas destinadas ao SUS por meio de transferência de tecnologia. O valor desse desenho está no método: transformar capacidade pública instalada em produção sustentada, com governança industrial e compromisso de entrega, reduzindo vulnerabilidades históricas do sistema.

No caso da raiva humana, o ponto é ainda mais sensível. Trata-se de um imunizante estratégico que, ao depender integralmente do exterior, fica exposto a estresses logísticos, variações de oferta e turbulências internacionais. O caminho de fabricação local representa mudança de patamar: sair da dependência total e construir uma trajetória de domínio tecnológico e autonomia produtiva.

Outra frente decisiva está no reposicionamento da estratégia de expansão produtiva e tecnológica, com iniciativas e parcerias voltadas a ampliar a capacidade nacional. Na mesma lógica, merece destaque o esforço para viabilizar a retomada da produção nacional da BCG, uma vacina histórica que lembra como o país precisa cuidar do "básico" com a mesma seriedade com que persegue as fronteiras tecnológicas.

Logo nos primeiros dias do ano, o noticiário destacou outro fato a se comemorar, o programa piloto de vacinação contra a dengue, com um imunizante de tecnologia nacional, de dose única. A relevância desse passo vai além do simbolismo. Quando uma doença de grande carga para o SUS passa a contar com solução concebida e produzida no país, ganham a previsibilidade e a capacidade de resposta do sistema.

No plano internacional, a aprovação do Acordo de Pandemias da Organização Mundial da Saúde (OMS) representou um avanço institucional relevante, ao propor mecanismos permanentes de coordenação, transparência e acesso equitativo a vacinas, diagnósticos e tratamentos. Ainda assim, 2025 mostrou que acordos multilaterais não se sustentam apenas no papel: a operacionalização, especialmente no compartilhamento de patógenos, dados e benefícios, seguirá sendo o verdadeiro teste de maturidade do sistema global de saúde.

Mas o ano que passou também expôs um incômodo: avanços podem conviver com retrocessos profundos. O enfraquecimento dos programas de vacinação nos Estados Unidos é exemplo emblemático, não por falta de capacidade científica, mas por erosão institucional, fragmentação política e perda de confiança pública. Trata-se de um alerta sobre o que acontece quando a vacinação deixa de ser política de Estado e vira disputa ideológica ou entre narrativas desinformadas.

2025 reforçou ainda lições conhecidas, mas muitas vezes negligenciadas: a febre amarela voltou a demandar atenção; a Mpox saiu do status de emergência, mas não desapareceu; e a influenza aviária permaneceu como ameaça latente, exigindo vigilância integrada entre saúde humana, animal e ambiental. A vigilância epidemiológica não pode ser episódica; precisa ser permanente.

Na fronteira tecnológica, o ano consolidou a entrada das terapias avançadas — celulares e gênicas. O desafio deixou de ser provar eficácia e passou a ser garantir escala, sustentabilidade financeira e acesso equitativo. Ao mesmo tempo, avanços na prevenção do HIV com medicamentos de longa duração mostraram como a inovação pode reduzir desigualdades quando considera o mundo real.

Por fim, a resistência antimicrobiana seguiu avançando silenciosamente, lembrando que parte das maiores ameaças à saúde global não vem de novas doenças, mas do desgaste progressivo das ferramentas que já temos. Onde houve estratégia e compromisso público — como no fortalecimento da capacidade produtiva em saúde — os avanços se sustentaram; onde faltaram coesão e liderança, até sistemas maduros mostraram fragilidade.

 

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Por Opinião
postado em 19/02/2026 06:00
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