ARTIGO

Por um mundo com mais "mimimi"

O tratamento que Las Vegas e o resto do mundo dispensam às mulheres é o que forma abusadores, misóginos, feminicidas, parricidas

As aulas terão início em 21 de fevereiro em aulas semanais realizadas no Complexo Cultural de Samambaia -  (crédito: Caio Gomez)
As aulas terão início em 21 de fevereiro em aulas semanais realizadas no Complexo Cultural de Samambaia - (crédito: Caio Gomez)

Há uns 15 anos, estive em Las Vegas, cidade onde jamais pretendo pisar. Aliás, nunca pretendi: fui a trabalho, para uma conferência sobre armazenamento de dados em nuvem, uma grande novidade na época. Fiquei em um hotel-cassino, como são todos os da cidade e, assim como eu, várias pessoas estavam hospedadas lá para eventos corporativos.

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Eu poderia reclamar que Las Vegas é o cúmulo da cafonice, com absolutamente tudo parecendo um cenário de mau gosto. Também poderia dizer que acho cassinos enfadonhos — inclusive emanam uma energia muito ruim. Isso tudo é verdade. Mas o que mais odiei sobre Las Vegas é como as mulheres são oferecidas, dia e noite, aos visitantes.

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Assim que cheguei ao hotel, entrei em um elevador cheio de homens engravatados, que deviam estar lá também a trabalho. Em uma tela, passavam imagens de diversos tipos de mulheres quase nuas — era um catálogo. O anúncio trazia o ramal do serviço: bastava ligar e requisitar aquela que mais agradou ao freguês.

Estar fechada em um elevador com diversos homens que não tiravam os olhos da tela com um sorrisinho de satisfação foi uma das experiências mais constrangedoras da minha vida. Como meu andar era um dos últimos, deu tempo de ver todas as opções do cardápio. A propaganda era intercalada com anúncios de drinques e lanches servidos pelo hotel, pedidos em um ramal diferente. 

Em seguida, fui dar uma volta na rua e dei de cara com um tipo de carreta com grades que, em vez de mercadoria, exibia mulheres. O telefone do serviço vinha pintado no veículo. Impossível não comparar aquelas belas moças amontoadas ao gado sendo levado ao matadouro. 

Creio que nem preciso dizer que não se trata de moralismo ou conservadorismo.

Não faço ideia se as coisas mudaram nessa década e meia passada. Um amigo esteve lá anos depois e também viu a "carreta boiadeira". Talvez o que tenha mudado seja a forma de comunicação: em vez de telefone fixo, um número de whatsApp ou endereço de site. 

Sempre me lembro desse episódio quando vejo comentários saudosistas nas redes sociais sobre os programas de televisão dos anos 1990/2000. Foi o auge de vespertinos "para toda a família" protagonizados por modelos que tinham de disputar sabonete numa banheira, ou que assumiam personagens como feiticeira ou sadomasoquista para atender às fantasias sexuais do público masculino. É desconcertante ver gente (inclusive mulheres) dizendo: "Bons eram esses tempos, hoje o povo já vem com mimimi". 

Pessoas que não se revoltam com mulheres engaioladas, com catálogos de mulheres no elevador, com mulheres seminuas em programas liberados para todas as idades são as mesmas que justificam um homem matar os filhos porque foi traído. Não é exagero. 

O tratamento que Las Vegas e o resto do mundo dispensam às mulheres é o que forma abusadores, misóginos, feminicidas, parricidas. É o que legitima grupos de adolescentes que se desafiam em tarefas "de macho", como matar um cachorro idoso a paulada ou filmar as meninas no banheiro. Por mais mimimi no mundo!

 

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postado em 20/02/2026 06:00
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