
Gloria María Vargas — Professora do Departamento de Geografia da Universidade de Brasília (UnB)
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Aguerra Rússia-Ucrânia, que entra em seu quarto ano nesta terça-feira, 24 de fevereiro, possui profundas raízes culturais que, frequentemente, são ofuscadas pelos aspectos militares e geopolíticos. História, língua, identidades, divisões religiosas alimentam o conflito ao moldar percepções de eu versus o outro e justificam e reiteram agressões. Cada lado detém narrativas que enfatizam aspectos considerados cruciais para a continuidade das respectivas nações. Enquanto os russos sublinham a unidade cultural com a Ucrânia, afirmando uma herança compartilhada, os ucranianos fazem ênfase em distinções históricas e territoriais que carregam diferenças culturais enraizadas e ancestrais.
Uma das grandes disputas de narrativas é sobre a herança da Rus de Kiev, o proto-estado eslavo medieval que existiu entre os séculos 9 e 13 e abrangia territórios que hoje incluem partes da Ucrânia, Rússia, Bielorrússia e outros países do Leste Europeu. Seu centro político, cultural e religioso era a cidade de Kiev (atual capital da Ucrânia), o que justifica o nome "de Kiev", para diferenciá-la de formações posteriores. Os russos vindicam esse território como o primeiro estado russo, sendo sucedido por Moscou como seu centro, após o declínio de Kiev. Já para os ucranianos, Rus de Kiev é o berço da nação ucraniana, com Kiev como centro cultural e político ancestral, com língua e tradições próprias, que evoluíram para a Ucrânia moderna. A Rússia moscovita teria emergido como poder apenas no século 14, após a conquista mongol.
O Rus de Kiev, sujeito de diferentes reivindicações, é também lócus de histórias, vivências e identidades. Vista por olhos ucranianos, é a origem da nação, com Kiev como lugar vivido de independência medieval, onde se desenvolveram processos que permitiram o comércio, a religião, as leis e a língua. Essa última não apenas como veículo de comunicação, mas como um dos elementos simbólicos mais importantes da cultura, que funciona como fator de enraizamento identitário e, portanto, de resistência frente a poderes não reconhecidos. No contexto da guerra, a importância da língua se multiplica, já que é um dos centros nevrálgicos das demandas sobre os territórios: da perspectiva russa, com o argumento de que a invasão à Ucrânia foi necessária para proteger os falantes russos, que estariam sendo ucranizados à força. Já da perspectiva ucraniana, a língua é o centro de resistência frente tanto à proibição sistemática de seu uso durante diferentes períodos de repressão russa, quanto a seu rebaixamento à condição de dialeto e, portanto, inferiorização linguística.
Como centro do território originário, Kiev emerge de muitas camadas históricas, como epicentro de intercâmbios comerciais ao longo do Rio Dniepre, onde se negociavam peles, mel, couros e madeira. No desdobramento dessas atividades, criaram-se ritmos societais cotidianos e sazonais. Isso consolidou um lugar vivo que sustentava uma identidade eslava compartilhada. Já no século 21, Kiev surge como uma metrópole multicultural diversa, onde se gestou a Revolução de 2014, a Maiden, mas também onde se viviam os ritmos pós-soviéticos de celebrações da independência cultural após 1991.
Da perspectiva da cidade como vivência, a invasão de 24 de fevereiro de 2022 significou a interrupção dos ritmos urbanos e das tarefas cotidianas. Os deslocamentos de metrô de um extremo ao outro da cidade e as saídas de casa em direção ao trabalho deram passo à procura de estradas de fuga e lugares de refúgio: as sirenes substituíram as buzinas; os drones, os pássaros. O lugar de vivência e convivência foi substituído por sons de explosões, visuais de escombros e cheiros de fumaça. Da visão russa, Kiev é um lugar perdido do mundo russo, que precisa ser reapropriado para justificar a reunificação, necessária para fazer coesa sua história. As anexações são a herança compartilhada que precisa ser recuperada.
Essas visões contraditórias e irreconciliáveis fazem parte do espírito do lugar, esse caráter imaterial e essa atmosfera única que se formam na essência sensorial de um local e que emergem da interação entre elementos materiais e simbólicos. Nele, captura-se a fala do lugar dirigida aos sentidos, que evoca emoções, memórias e identidades coletivas. O espírito do lugar vai além da descrição física: é o que faz um lugar ser vivido e significativo. Kiev, local disputado, com toda sua estratificação histórica, cultural e política, é também lócus de uma guerra de imposição do espírito do lugar: quem consegue fazer prevalecer sua leitura do verdadeiro espírito ganha legitimidade, até na tentativa de apagamento material.
O que se disputa numa guerra vai muito além da materialidade dos lugares: envolve dimensões culturais e existenciais de significados acumulados, memórias coletivas e relações simbólicas que são tão suscetíveis à violência quanto os corpos que se mutilam e se apagam. Fazer prevalecer um espírito ou outro faz parte dos requerimentos culturais que também definem os perdedores e vencedores dos conflitos.

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