ARTIGO

Nem loucos, nem monstros: eles são maus

Ao mesmo tempo, por mais tenebrosos e odiosos tenham sido os atos desses péssimos seres humanos, a comoção criada pelo assassinato do Orelha mostra que eles são a exceção

Eu tinha uns 6 anos e estava brincando de recortar e colar figuras de revistas quando uma formiga de asa pousou na minha "arte". A segurei por um dos apêndices para tirá-la de cima do caderno e, nisso, acabei arrancando a asinha. Fiquei arrasada, mas rapidamente pensei que seria possível consertar o estrago. Com a cola, tentei "operar" a formiga e, claro, ela acabou morrendo. Foi uma experiência tão triste que até hoje me lembro disso com frequência — ainda consigo sentir a dor de ver um bichinho sem vida, morto por minha causa.

Isso não fez de mim uma criança cândida — na verdade, eu já joguei um peso de porta no pé de uma irmã e li o diário da outra (e contei para todo mundo que ela gostava do nosso primo). Não querer machucar um bicho indefeso é o esperado em um ser humano. Ou, ao menos, deveria ser.

Siga o canal do Correio no WhatsApp e receba as principais notícias do dia no seu celular

Por isso, é tentador imaginar que esses jovens que torturaram até a morte o Orelha, um cachorro comunitário já idoso, são monstros. É mais fácil aceitar a crueldade extrema quando desumanizamos o algoz. Também há quem confunda loucura e maldade, um peso que injustamente cai sobre pessoas com transtornos mentais graves. É até possível serem psicopatas — somente um médico perito pode avaliar, mas, como se sabe, a psicopatia não pressupõe perversidade, a maioria das pessoas que não sentem empatia, inclusive, não é criminosa. 

Esses rapazes não são monstros, nem loucos, nem foram possuídos por alguma força maligna. Não há atenuantes para um grupo de quase-homens bem-nascidos, que estudam em escola cara, viajam para a Disney, jogam futebol e fazem selfie para postar nas redes sociais. Esses rapazes são simplesmente maus, e isso é o que nos horroriza. (Sim, estou julgando e, se pudesse, adoraria condená-los.)

Ao mesmo tempo, por mais tenebrosos e odiosos que tenham sido os atos desses péssimos seres humanos, a comoção criada pelo assassinato do Orelha mostra que eles são a exceção. Tirando um ou outro que tenta pegar carona nessa tragédia, a indignação geral parece verdadeira e fez algo que parecia impossível: uniu uma sociedade fraturada por ideologias distintas.

Orelha, Manchinha, Azeitona, o cavalo mutilado por quem dele se serviu até exaurí-lo: eles e todos os outros animais vítimas de seres humanos maus merecem justiça. Ah, Orelha! Se ao menos eu pudesse "colar a sua asinha"...

 

 

Mais Lidas