Afrota de motocicletas no Brasil chegou a 35 milhões em 2025, com a comercialização de 2,19 milhões de unidades, superando a compra de automóveis (1,9 milhão), um crescimento de 17% em relação a 2024. Manteve-se, assim, uma curva ascendente de aquisição de veículos sobre duas rodas — a frota cresceu 42% em 10 anos, de 2015 a 2024 —, que tem mudado a forma de deslocamento da população e desafiado os gestores públicos.
Um dos alertas é com relação à segurança. O número de acidentes de trânsito envolvendo motociclistas e óbitos acompanha os ritmos de compra e venda. Segundo o Ipea, a participação de motos em sinistros com morte nas estradas brasileiras passou de 3% no fim dos anos 1990 para quase 40% em 2023.
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Dados divulgados pelo Ministério da Saúde em janeiro último trazem ainda mais detalhes sobre esse fenômeno. O Nordeste passou a liderar o ranking de mortes no trânsito — posição historicamente ocupada pelo Sudeste — justamente por conta da maior adesão aos veículos sobre duas rodas na região. Foram registrados nos estados nordestinos 1.894 óbitos no trânsito em 2024, contra 10.995 no Sudeste. Considerando apenas as vítimas em motocicletas os números são, respectivamente, 6.116 e 3.820.
O descontrole em acidentes fatais envolvendo motociclistas não está circunscrito ao Nordeste. É uma triste realidade em todo o país. No Distrito Federal, o Departamento de Trânsito (Detran-DF) constatou aumento de 40,5% de motociclistas mortos de 2024 para 2025. Nas vias da capital federal, 271 pessoas morreram no ano passado. Os motociclistas somaram 104 (38,4%) dos óbitos — um aumento de 40,5% em relação a 2024. Preocupa ainda a constatação de que, em 46,2% dos sinistros fatais, o uso de álcool figurou como fator de risco.
Em Minas Gerais, só no primeiro semestre do ano passado, a Polícia Rodoviária Federal registrou 37,4 mil acidentes envolvendo motos. A BR-040, com elevado tráfego é considerada uma rodovia perigosa, o que exige muita atenção dos condutores de todas as modalidades de veículos.
Especialistas atribuem a maioria dos casos de óbitos de motocicletas à imprudência, ao excesso de velocidade e à falta de atenção dos condutores. Embora esses fatores tenham peso nos acidentes, é inegável que nem sempre as vias de tráfego estão em condições adequadas, o que contribui para os desastres.
As condições de trabalho, também. A entrega de encomendas sobre duas rodas é cada vez mais fonte de renda no país, sobretudo entre os mais jovens e com baixa escolaridade. E a renda depende da quantidade de produtos entregues. Sem regulamentação, a lei do asfalto propicia o excesso de velocidade e outras infrações cometidas por motociclistas.
Há de se reconhecer que há um movimento do governo para trazer mais segurança ao trânsito, como mudanças nas regras para obtenção da Carteira Nacional de Habilitação e a gratuidade de renovação para os bons condutores. Também está prevista a elaboração do Programa Nacional de Segurança de Motociclistas. Essas medidas são importantes, mas a eficiência dependerá da garantia de que não haverá impactos na educação dos condutores — que, segundo especialistas, precisa, inclusive, ser atualizada — e que serão acompanhadas por mais rigor e eficácia nas fiscalizações.
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E mais: ao poder público cabe não só fiscalizar, mas estabelecer meios para garantir que rodovias interestaduais e urbanas tenham qualidade para o tráfego de motos, carros e ônibus, e sinalização adequada, provida de câmeras de vigilância ou de agentes de trânsito para conter os infratores. Experiências como as de São Paulo, com faixas exclusivas para os motociclistas, também devem ser consideradas.
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