ARTIGO

A culpa é dele

O governador joga a culpa sobre o povo do DF ao decidir desapropriar seus eleitores e o restante da população para que paguem pelo rombo que ele criou com a maior fraude bancária do Brasil

BSBdf 1501 -  (crédito: kleber sales)
BSBdf 1501 - (crédito: kleber sales)

Cristovam Buarqueprofessor-emérito da Universidade de Brasília (UnB) 

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Faz dois anos que o Brasil assistiu às cenas golpistas do 8 de Janeiro. Naquele domingo de 2023, nem as autoridades do Executivo, do Judiciário ou do Legislativo, nem a imprensa conseguiram localizar o governador do DF; ninguém ouviu sua voz de comando. Quando ressurgiu, foi para aceitar que seus subordinados tivessem suas carreiras profissionais interrompidas e fossem condenados a anos de prisão — sem uma única fala assumindo responsabilidade. Seus subordinados, que sem dúvida dividiam com ele a responsabilidade, estão pagando o preço e ficarão presos e marcados por toda a vida.

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Seu secretário de Segurança perdeu a carreira de policial federal e está preso, condenado a 24 anos — um quarto de século. Cinco oficiais superiores, comandantes da Polícia Militar, foram expulsos da corporação e cada um condenado a 16 anos de prisão. Enquanto isso, o governador, poupado de qualquer responsabilidade naqueles atos, participa de fraude bilionária usando o BRB e joga a culpa em novo subordinado.

Dois anos depois da tentativa de golpe, agora, o governador deixa o presidente do BRB ser responsabilizado pela maior fraude bancária do Brasil: culpado de desperdiçar R$ 12 bilhões de recursos de um banco público, com o intuito de salvar um banco privado falido, em troca ainda não se sabe de quais benefícios ou propinas. O mesmo que no golpe de 2023 se escondeu enquanto seus auxiliares caminhavam para a desonra e a cadeia, condenados e presos, deixa agora a culpa para o presidente do BRB, que ele nomeou e a quem acompanhou nas negociações.

A carreira desse profissional está destroçada; talvez, seu destino seja perder patrimônio e liberdade, enquanto seu chefe, sem poder negar presença, diz que "entrou mudo e saiu calado" nas reuniões em que se decidiu desviar R$ 12 bilhões do banco do DF, pertencentes não apenas a seus eleitores, mas a todos os cidadãos do Distrito Federal. A culpa das fraudes, trapaças e negociatas, assim como das tentativas de golpe, continua sendo dos outros.

Mas o governador não se limita aos seus subordinados e, agora, joga a culpa sobre o povo do DF ao decidir desapropriar seus eleitores e o restante da população para que paguem pelo rombo que ele criou. Joga a culpa no povo ao propor a venda do patrimônio da população, atual e futura, para cobrir o rombo e salvar o banco ameaçado de falir ou ser incorporado à União. Propõe vender as terras reservadas para financiar a construção de Brasília e seu desenvolvimento.

Sugere salvar sua culpa obrigando o povo a pagar pelo erro que ele cometeu: sacrificar investimentos; reduzir gastos com medicamentos de doentes, salários de servidores, segurança pública, merenda das crianças, para cobrir o rombo que ele induziu. Um político tão rico que abriu mão do salário de governador porque lhe pareceu insignificante e que achou a residência oficial de Águas Claras tão pobre que preferiu ficar em seu palácio pessoal não propõe usar sua fortuna para cobrir o rombo provocado por sua irresponsabilidade. Apesar de seu imenso patrimônio, joga a culpa nos outros — seu subordinado ex-presidente do BRB, o povo, seus eleitores, as crianças, os doentes, os servidores.

Triste é que sua acusação termina sendo aceita por aqueles a quem ele acusa e ficam calados. Na prisão, os golpistas aceitam a culpa em silêncio, o povo aceita a culpa ao votar outra vez nele para novo cargo, onde continuará errando e jogando a culpa nos outros. O silêncio dos culpados presos e o voto dos culpados eleitores confirmam o que ele diz: a culpa é realmente dos outros — dos que calam, dos que se omitem, dos que votam e dos que não o julgam.

A culpa é dos deputados distritais que se preparam para dar apoio à  venda do DF a fim de salvar o banco. Aceitam a culpa, protegem o patrimônio do governador, não convocam CPI e ainda dizem ao povo que estão salvando o BRB. Triste ver que, no fim, estão dando razão a ele: "A culpa é de vocês". Afinal, quem cala consente: o presidente que ele nomeou aceita a responsabilidade por incompetência ou corrupção de quebrar o BRB para salvar o Banco Master. Os eleitores aceitam a culpa ao verem o patrimônio de seus netos evaporados e, ainda assim, votarem no responsável pela fraude, pelo roubo, pelo rombo.

A culpa é dele, mas quem cala aceita a culpa.

 

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Por Opinião
postado em 04/02/2026 06:00
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