ARTIGO

Instintos entorpecidos

Parece inacreditável que o hábito de depender do celular para quase tudo tenha amortecido o instinto de sobrevivência

JOSÉ HORTA MANZANO, empresário

Depois do último grito animado de "Feliz ano novo!" daquela noite de passagem de ano, tirando os que não desgrudaram da telinha do celular, os suíços foram dormir tranquilos, à espera de um novo ano melhor que o anterior, alheios ao drama que se desenrolava por aquelas horas.

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Em Crans-Montana, localidade de montanha muito apreciada por visitantes em busca de neve, esqui e diversão noturna, o Bar Constellation era o ponto de encontro de uma clientela de adolescentes e jovens adultos. Embora os menores de 16 anos nem tivessem autorização para tomar bebida alcoólica, a maior parte dos frequentadores costumava ter entre 15 e 18 anos. Estavam todos no desabrochar da vida, o que só faz potencializar o horror do que estava prestes a acontecer naquela noite de ano-bom.

O local se encontra num subsolo. (Chamá-lo de porão não cai bem, daí a preferência pelo eufemismo.) É preciso descer uma escadaria íngreme para chegar ao salão, de pé direito relativamente baixo, sem janelas que deem para o exterior. É impossível saber quantas pessoas estavam ali na passagem do ano — umas duzentas, daí pra cima. Gente atrai gente, e o fluxo de clientes só cessou quando o porteiro, lá em cima, avisou que estava lotado.

No momento de servir garrafas de champanhe, o Constellation mantinha um peculiar costume — e parece não ser o único estabelecimento a fazê-lo. Em volta do gargalo da garrafa ainda não aberta, amarravam velas acesas soltando faíscas. Hábito festivo, sem dúvida, mas a ser usado com parcimônia e extrema precaução. Em ambiente fechado, mormente num subsolo insonorizado, seu uso deveria ser proscrito.

Para coroar a insensatez, os proprietários do bar incitavam a garçonete a trazer as garrafas sentada sobre os ombros de um colega masculino. Deixemos de lado considerações do tipo "exploração de funcionário", que não é o momento. Agora, imagine vosmecê: local abarrotado de clientes, pé direito não muito elevado, teto revestido de espuma acústica altamente inflamável, garçonete de braços erguidos, montada no ombro de um colega, agitando duas garrafas de champanhe com velas de faísca. O que tinha de acontecer, aconteceu.

Uma primeira placa de espuma se incendiou. Depois, outra. E, logo, mais uma. Em outros tempos, isso bastaria para uma descarga de adrenalina que fizesse a clientela correr dali mais rápido que o incêndio. Difícil dizer se, nesse tropel, algum cliente se teria salvado, mas, pelo menos, teriam tido uns segundos a mais para se porem ao abrigo. Não foi o que se viu.

Os jovens nascidos no século 21, como era o caso de praticamente toda aquela moçada, não funcionam como nós, que já entramos neste século com uma certa idade. Eles nasceram num mundo digitalizado, informatizado, automatizado até enjoar. A chegada da IA reforçou a dependência que as jovens gerações nutrem pelo celular. O telefone tem solução pra tudo: nem precisa pensar, basta clicar.

Pois bem, naqueles segundos que se seguiram à primeira placa incendiada, muito poucos se deram conta do perigo. O reflexo da grande maioria foi dirigir o celular para o começo do incêndio e filmar o evento. Como se sabe, hoje em dia nenhum acontecimento tem existência real se não tiver sido registrado em vídeo, garantia de futuros likes. Parece inacreditável que o hábito de depender do celular para quase tudo tenha amortecido a esse ponto o instinto de sobrevivência. Filmar em vez de correr dali!

Outro costume moderno, que é o de depender de notificações, também teve sua importância no desenrolar do drama. Há notificação em tempo real para tudo: atraso no transporte, enchente, frio, vento, fala de político, grupo de zap da escola. Tudo o que é importante passa pelas notificações. Lá no subsolo do Constellation, naqueles instantes dramáticos, o sininho não tocou. Conclusão da juventude: não deve ser tão grave assim. Podemos continuar filmando, que alguém vai resolver o problema.

Foram 40 mortos e 160 feridos, dos quais 70 ainda estão em hospitais lutando pela sobrevivência. Todos portarão sequelas pelo resto da vida. 

Não se pode afirmar que, tivessem reagido mais prontamente, mais vidas teriam sido salvas. Mas é bem possível que sim. De lição, nos resta abrir os olhos de pais e mestres, de todos os que cuidam de formar a Geração Z (Gen-Z), para reavivarem o funcionamento de instintos que andam enevoados e ao deus-dará.

 


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