ARTIGO

Vizinho agitado

Argentina e Estados Unidos firmaram acordo comercial que abre o mercado de um para produtos do outro. O vizinho continua a ser um país agitado. E sem receio de criar embaraços a quem está por perto

ANDRÉ GUSTAVO STUMPF, jornalista

Argentina e Estados Unidos firmaram acordo comercial, neste mês, que abre o mercado de um para produtos do outro. Um tratado de livre-comércio que beneficiará muito os vizinhos do sul. O governo de Washington já tinha favorecido o presidente Javier Milei, o que ajudou a vencer a última eleição e a acalmar o mercado. Argentina era um país praticamente falido, mas encontrou com o amigo norte-americano dólares suficientes para se reerguer, melhorar seu caixa e fazer a inflação baixar a níveis quase civilizados.

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Donald Trump tem participação expressiva nessa mudança de rumos do vizinho do sul. Milei assumiu o governo prometendo fazer cortes nas despesas e tem avançado nesse sentido. A inflação recuou nos últimos meses, depois de permanecer em três dígitos por muito tempo. Na época, não havia reservas. Sob esse aspecto, os resultados positivos do esforço de Milei são visíveis. Mas o acordo com os Estados Unidos agride diretamente o conceito que norteou a criação do Mercado Comum do Sul, o Mercosul.

Vale a pena voltar um pouco na história para lembrar o cenário de confronto entre Brasil e Argentina desde os anos de 1970. Naquela época, o governo do Brasil decidiu construir a Hidrelétrica de Itaipu, numa associação com o governo do Paraguai. Os argentinos não aceitaram a decisão com o argumento de que a altura da barragem de Itaipu impediria a construção no território deles de uma outra hidrelétrica, chamada Corpus, que nunca saiu do papel. A discussão foi pesada, e o Brasil era acusado nos jornais de Buenos Aires de estar preparando uma bomba hídrica. Se as comportas da grande barragem fossem abertas, a água inundaria tudo pelo caminho e chegaria à capital argentina. Esse argumento foi desenvolvido a sério. Foi muito difícil chegar a um acordo.

Mas os três países conseguiram se colocar de acordo. O Paraguai assinou um tratado binacional com a Argentina para construção da Hidrelétrica de Yacyretá, que hoje forma um enorme lago perto da fronteira. Itaipu funciona majestosa. E já pagou o empréstimo concedido pelos bancos ingleses. Mas havia um outro problema, menos ostensivo. Os argentinos estavam desenvolvendo, na época, um programa nuclear baseado numa tecnologia chamada de água pesada. É a técnica parecida com a utilizada para a criação da bomba atômica que devastou Hiroshima, no Japão. Era um tema muito apreciado pelos militares de lá, os mesmos que, tempos depois, jogaram o país na guerra contra os ingleses pelas Ilhas Malvinas.

Os militares brasileiros também se lançaram, na mesma época, naquilo que depois se chamou de programa nuclear secreto. As três Forças Armadas lançaram-se numa corrida em busca de autossuficiência na produção de combustível para a bomba atômica. A Aeronáutica chegou a furar um profundo poço na Base Aérea de Cachimbo com objetivo de fazer testes nucleares subterrâneos. O então presidente Fernando Collor fechou o poço. O Exército trabalhou muito nas suas instalações na Restinga da Marambaia, no Rio de Janeiro. Mas foi a Marinha que conseguiu alcançar seu objetivo. No centro de Aramar, no interior de São Paulo, seus técnicos conseguiram enriquecer urânio através de ultracentrifugadores, método semelhante ao que é utilizado atualmente no Irã. A experiência da Marinha, que foi bem-sucedida, agora é aplicada na construção do primeiro submarino movido à energia nuclear no Brasil.

Quem restabeleceu a sanidade e tranquilidade foram os dois presidentes civis que sucederam em seus países os períodos militares. Raul Alfonsin, argentino, e José Sarney, brasileiro, assinaram os primeiros documentos que fundamentam o mercado comum do Cone Sul. Delegações de um e de outro país visitaram as instalações nucleares do vizinho, tomaram conhecimento de seus projetos e acabaram com o temor de uma escalada militar no continente. A ideia original do Mercosul é brilhante e foi oportuna na época em que se tornou realidade. Depois, as sucessivas regulamentações o transformaram em mecanismo destinado a restringir o crescimento das economias. São poucos os tratados internacionais. Além do badalado e até agora não aplicado acordo com a União Europeia, há um outro menor com países da Europa que não integram a Comunidade Europeia.

Por meio do Acordo de Comércio e Investimentos Recíprocos com os Estados Unidos, a Argentina concederá acesso favorecido a mais de 200 posições tarifárias, como setores de medicamentos e veículos, a partir de abril, além de alinhar suas políticas de propriedade intelectual e segurança econômica às americanas. O vizinho continua a ser um país agitado. E sem receio de criar embaraços a quem está por perto. Não esquecer que os argentinos já ameaçaram fazer guerra contra o Chile por causa do Canal de Beagle, no extremo sul do continente. Mas essa é outra história.

 


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