
Benito Salomão — professor do Programa de Pós-Graduação em Economia da Universidade Federal de Uberlândia (PPGE-UFU)
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Recentemente, o Comitê de Política Monetária (Copom) reuniu-se para decidir a meta para a Taxa Selic vigente nos próximos 45 dias. A decisão foi pela manutenção em 15% ao ano, o que traz algumas implicações não desprezíveis. A escolha por um juro básico de 15% ao ano, em um contexto de queda da inflação acumulada, gera uma taxa real de juros ex ante mais elevada. Pelos dados mais recentes (IPCA de janeiro de 4,4%), a taxa real de juros ex ante (juro esperado para o futuro) estaria próxima dos 10,6% (15% - 4,4%).
Uma avaliação mais refinada do tema sugere que avaliar o patamar da taxa real de juros deve ser considerado alto, ou baixo, a partir da comparação com uma taxa de referência, a chamada taxa neutra de juros. A definição de juro neutro (ou natural) é datada da obra seminal de Knut Wicksell (1890); em termos mais contemporâneos, é tratada como a taxa de juros real que não exerce influência sobre a inflação. Em outras palavras, se a taxa real de juros for igual à taxa neutra, a política monetária está se comportando de tal modo que nem estimula nem desestimula a atividade e, consequentemente, os preços.
Estimativas recentes do próprio Banco Central do Brasil (BCB) indicam que a taxa neutra de juros no Brasil é próxima a 5,5%. Isso posto, a decisão de manter a Selic em 15%, gerando uma taxa real de 10,4%, indica que o juro real no Brasil está 4,9% acima do neutro. Esse é o grau de contração da política monetária. Se na reunião anterior o BCB tivesse optado por um corte de 0,25 ponto base na Selic, a política monetária continuaria no campo contracionista, porém com um grau de contração mais frouxo (4,7%). Portanto, não se trata de mudar a orientação da política monetária, mas, sim, de recalibrar. No seu comunicado, o BCB justificou a sua decisão pela manutenção da taxa nominal; destaco dois pontos: resiliência do mercado de trabalho e expectativas de mercado desancoradas.
Começando pelo primeiro argumento, ao alegar que a decisão de manter juros altos se deve ao comportamento do mercado de trabalho, o BCB está fundamentado na tradicional literatura da curva de Phillips (e o seu eventual trade off de curto prazo entre inflação e desemprego). A dinâmica recente de desinflação, no entanto, tem ocorrido apesar da resiliência do mercado de trabalho no Brasil. Levantei esse ponto em coluna recente neste mesmo jornal, denominada Inflação e mercado de trabalho. Refinamentos recentes na literatura envolvendo a Curva de Phillips sustentam que, sob certas circunstâncias, nenhum resfriamento no mercado de trabalho precisa ser verificado para que uma desinflação em preços ocorra. Esse parece ser o caso da economia brasileira no presente. Isso posto, as preocupações do BCB com o mercado de trabalho soam conservadorismo em excesso.
O segundo ponto, no entanto, parece mais problemático. Alegar expectativas desancoradas de inflação baseado nas medianas do Focus pode se mostrar um erro. No primeiro relatório de setembro de 2025, a mediana das projeções para o IPCA estava em 4,85% para 2025 e 4,30% em 2026. O resultado do IPCA acumulado em dezembro de 2025 foi 4,2%, bem abaixo das previsões de três meses antes. Em resumo, o BCB entregou em 2025 a inflação esperada há três meses para 2026. Esses dados mostram que, mesmo no decorrer do ano, as projeções do Focus têm se mantido constantemente atrás da curva, indicando que calibrar a política monetária no patamar mais contracionista dos últimos 15 anos baseados nelas pode ser um erro do BCB com elevados custos macroeconômicos.
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Um outro ponto que precisa ser incorporado nessa discussão envolvendo as previsões do Focus é que elas devem ser tratadas como endógenas. Em suma, por que essas expectativas têm sistematicamente subestimado o crescimento do PIB e superestimado a inflação? Há algo que o BCB possa fazer (além de manter juros excessivamente altos) para melhor coordenar essas expectativas? A minha opinião é que o Banco Central pode utilizar de alguns instrumentos de comunicação, talvez um guidance, para fazer um contraponto a essas expectativas. Colocando em outros termos, o BCB concorda que o IPCA 2026 será 4,3% ou ele tem argumentos para fazer o contraponto?
É importante destacar que a pesquisa Focus é estruturada a partir da agregação de medianas, há opiniões divergentes incorporadas no dado. A opinião do BCB pode exercer um relevante papel guiando essas expectativas para o seu reancoramento; é importante destacar que a postura da autoridade monetária tem sido tímida neste sentido. Em suma, não se deve normalizar juros demasiadamente altos, baseado em expectativas desancoradas que sistematicamente não se realizam a posteriori.
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