
Dear President Donald J. Trump, não é preciso ter cojones para entender que os Estados Unidos não são a América. Qualquer pessoa com o mínimo de conhecimento em geografia concluirá que o seu país faz parte do continente americano. Portanto, soa, no mínimo, megalomania acreditar que o senhor preside a América. Propagar ao vento que a "América" tem que ser "grande novamente" e colocar agentes mascarados para perseguir e matar imigrantes latinos me parece contrassenso e ilógico.
Os Estados Unidos são construídos com o suor de estrangeiros, muitos deles não documentados. São eles que se submetem a condições de trabalho duras para terem acesso ao chamado "american dream". Fazem parte de empregos rejeitados pelos cidadãos dos EUA e ajudam a movimentar a economia. São 35,1 milhões de trabalhadores latinos, que somam 19,1% da força de trabalho total. Geram um Produto Interno Bruto (PIB) da ordem de US$ 4 trilhões — seis vezes mais do que o de toda a Argentina. Perseguir, expulsar, impor uma política de terror e criticar imigrantes é um ato tão inteligente quanto socar a ponta de uma faca.
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Foi preciso o rapper porto-riquenho Bad Bunny transformar sua apresentação no Superbowl em ato político e em protesto para irritá-lo, senhor presidente. Ele escrachou ao mundo o que o senhor e sua ideologia cega insistem em não ver. A América é muito mais do que cidadãos fluentes em inglês. Ela abriga povos fluentes em espanhol, francês, português e até holandês. São 35 nações de um tecido social e cultural rico e diversificado. Incluem 1,06 bilhão de pessoas dotadas de sentimentos, de sonhos (nem sempre o "American dream") e de aspirações. Uma ínfima maioria tem planos de entrar nos EUA para tentar mudar de vida. Quando o líder da nação mais rica do planeta trata vizinhos como o quintal de sua casa e celeiros de criminosos, há algo muito errado aí.
Basta um pouco de noção de história para saber que o seu país, Trump, tem causado danos irreparáveis a esta América da qual o senhor acredita não fazer parte. Foi assim com a derrubada de Salvador Allende e a ascensão da ditadura de Augusto Pinochet no Chile. Ou com estrangulamento da economia de Cuba, após a imposição de um embargo econômico imoral. Ou com a deposição e captura de Nicolás Maduro, na Venezuela, sem ater-se à necessidade de mudança de regime. A repressão segue sendo princípio do chavismo, agora comandado por Delcy Rodríguez. Ou com a ocupação da Nicarágua, entre 1912 e 1933, e a guerra dos "Contras", incapazes de pôr fim ao sandinismo.
Descer do salto alto e reconhecer a grandeza de todas as nações da verdadeira América é uma atitude de nobreza ímpar. Os EUA podem estabelecer relações construtivas com países latinos — com amplos e respectivos benefícios. Tio Sam, passou da hora de perceber que existe muito mais para além de seu mundo encantado. Trump, sugiro rever, por várias vezes, a apresentação de Bad Bunny no último domingo e tentar aprender algo.

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