ARTIGO

Esperança e fé

Roseana chegou ao fim do seu tratamento, com uma operação muito bem-sucedida. A nossa esperança, que era nossa certeza, só tem agora gestos de gratidão e agradecimentos como tive oportunidade de expor

JOSÉ SARNEY, ex-presidente da República, escritor e imortal da Academia Brasileira de Letras

Vivi nos últimos meses entre a esperança e a apreensão. É que, há alguns meses, Roseana, minha única filha, fruto do meu extremado carinho, do meu amor e da minha admiração, pelo seu talento, pela sua personalidade corajosa e guerreira, deu-me um susto muito grande, quando me comunicou que, num checape de rotina, fora encontrado um câncer de mama, a necessitar de uma série de exames para diagnosticar sua natureza e seu estado de evolução.

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Procurei seu médico para obter todas as informações sobre o tumor e suas perspectivas exatas de evolução e cura. Pedi-lhe também que não me sonegasse nada, pois desejava saber exatamente de tudo. Com absoluta sinceridade, ele me disse tratar-se de um câncer altamente agressivo, que há alguns anos significava uma curta sobrevivência, mas que, graças aos avanços da medicina, hoje seria possível fazer um tratamento já padronizado, bastante efetivo, mais agressivo, com alguns efeitos paralelos, mas com muito bons resultados.

Imediatamente, dois sentimentos me dominaram: o primeiro, de grande apreensão, e o segundo, de grande esperança. A esperança aliada à fé nos traz a certeza. Vi minha mãe professar a fé. Sei que existe ser cristão porque minha mãe era cristã: amava os outros, oferecia a outra face do rosto, sabia quem era o próximo e para ele tinha sempre caridade. Sei a força da oração porque vi minha mãe orar a vida inteira e tudo conseguir orando, anos e anos, dias e noites agarradas às contas do terço e com os olhos "nos olhos do crucificado".

Fui educado, por meu pai e minha mãe, nessa escola. Foi sobretudo dela que me veio o hábito de pedir a Deus sempre que me deparo com esses golpes que a vida nos traz. Mais tarde, convivi intensamente com Santa Irmã Dulce dos Pobres, que se tornou uma segunda intermediária nessa entrega de nosso destino em Suas Mãos.

Assim, como somos uma família que cultiva a fé como dogma, passei esses meses vivendo uma grande apreensão, mas na certeza de que Deus não nos abandonaria e que, pelas mãos competentes e talentosas dos médicos que a assistiam — Dr. Artur Katz, Dr. David Uip, Dr. Roberto Kalil, Dr.ª Marianne Pinotti, Dr. Raul Cutait, Dr.ª Filomena Galas, Dr.ª Cristina Abdalla, Dr.ª Beatrice Abdalla, Dr.ª Thaís Brandão, Dr. Vitor Dias, Dr. Pedro Henrique Benfatti, Dr.ª Claudia Cozer, Dr. Marcelo Rodrigues, Dr.ª Marina Sahade e todos os outros médicos e enfermeiros da equipe —, seria restituída sua saúde.

Não podemos nos esquecer o quanto foi comovente a solidariedade do povo brasileiro, a começar pelo Maranhão, onde o acompanhamento de sua doença foi um verdadeiro ato de fé, nas orações que foram feitas neste período, nas missas que foram pedidas por seu restabelecimento e nas orações espontâneas dos sacerdotes em diversas igrejas, como tive oportunidade de testemunhar.

Sem dúvida, essa filha tem-me dado muita alegria. Pelo seu coração bondoso e desempenho tão louvado nos diversos cargos que ocupou e nos quatro mandatos de governadora do Maranhão — primeira governadora eleita do Brasil —, por seu espírito público e pelo que realizou em benefício do nosso Estado, exercendo sempre funções públicas pelo voto do povo.

Agora, Roseana chegou ao fim do seu tratamento, com uma operação muito bem-sucedida.

A nossa esperança, que era nossa certeza, só tem agora gestos de gratidão e agradecimentos como tive oportunidade de expor.

O mais comovente desses gestos de solidariedade nos veio de Sucupira do Norte, de um pobre homem, cheio de bondade e com grande coração que, durante todos esses meses, reunia em oração um grupo de fiéis, rogando a Deus e a Nossa Senhora pela saúde de Roseana e, não tendo nada para ofertar, mandou seu coração, que foi um vidro de mel de tiúba, uma abelha selvagem, que tem uma doçura admirável, que ele colheu na mata, e uma lasca de casca de pau-d'arco, para que se fizesse um chá para ajudar na cura. Foi o presente maior e mais puro que recebeu.

Enfim, este artigo pode ser considerado uma declaração de gratidão a todos que estiveram e estão solidários com ela, por sua saúde, ao povo maranhense, ao povo brasileiro, aos amigos, aos parentes e a Deus pela graça da sua saúde, do amor e da proteção contra todos os males e perigos.

 


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