Em um conflito, não existe nada que não possa piorar. Peguei emprestado esse raciocínio da chamada Lei de Murphy, um conceito cunhado na década de 1940, supostamente pelo engenheiro aeroespacial norte-americano Edward A. Murphy Jr. A grosso modo, a ideia preconizava que qualquer planejamento precisa levar em conta o fracasso. Os Estados Unidos, de Donald Trump, parecem rufar os tambores da guerra no Oriente Médio. Tanto que ordenaram a retirada de pessoal não essencial de Beirute. A capital do Líbano é a sede do quartel-general do movimento islâmico xiita Hezbollah, uma mistura de milícia armada e partido político. Se nos atentarmos ao fato de que o grupo é o principal aliado do Irã na região, fica fácil deduzir que a medida busca proteger o staff da representação diplomática de um ataque de Israel a uma suposta retaliação do Irã.
Israel é o principal aliado estratégico dos Estados Unidos no Oriente Médio. Como Teerã não possui míssil capaz de atingir diretamente o território norte-americano, cabe supor que os israelenses sejam um alvo óbvio do Irã e do próprio Hezbollah. Por isso, a medida preventiva da Embaixada norte-americana em Beirute.
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Nos últimos dias, Trump tem emitido sucessivos sinais ao regime teocrático islâmico sobre um eventual "ataque limitado". No entanto, o republicano deixou evidente seu desconforto com a violenta repressão exercida pelos aiatolás a protestos de estudantes, cada vez mais comuns e intensos. O presidente norte-americano também vocalizou que o fim do regime iraniano seria bem-vindo. A retórica é bem parecida com aquela devotada à situação na Venezuela. Deu no que deu. Na calada da noite, os Estados Unidos capturaram o ditador Nicolás Maduro, em Caracas. Mas foram incapazes de derrubar o regime.
O cenário envolvendo o Irã é muito mais complexo. Os aiatolás estão no poder desde a Revolução Iraniana de 1979, quando a monarquia autocrática do xá Reza Pahlevi — apoiada por Washington — foi deposta em 11 de fevereiro. O líder acabou forçado ao exílio. Seguidores da corrente xiita do islã, os iranianos mantêm alianças com facções armadas no Iraque e na Síria, além do Hezbollah e dos huthis, no Iêmen. Qualquer ação militar mais contundente interpretada por Teerã como um perigo ao regime pode desencadear uma reação em cadeia no Oriente Médio, com o risco de uma guerra regional.
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A julgar pelas ameaças das autoridades do país, Teerã estaria pouco disposto ou propenso a ceder em um acordo sobre seu programa nuclear. Isso porque o Irã considera o enriquecimento de urânio — e o seu uso para supostos fins de geração de eletricidade — um motivo de orgulho nacional. Entre 13 e 24 de junho passado, Israel e os EUA realizaram vários bombardeios a instalações atômicas iranianas. Eles debilitaram o programa nuclear, mas não o extinguiram. Dessa vez, Trump pode querer ir bem longe e destituir um regime que considera pouco digno de confiança. O mundo prende o fôlego à espera do primeiro míssil.
