ARTIGO

Quatro anos da guerra da Ucrânia: a derrota russa e a reinvenção da Europa

A autocracia russa não está prestes a perder a guerra pela falta de apoio mais decisivo da China, mas porque superestimou sua capacidade militar e supôs certa inanição europeia frente ao avanço sobre território ucraniano

Vinícius Müllerdoutor em história econômica pela USP e professor da Faculdade Belavista, do Insper e da Fundação Dom Cabral

 

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Há um ano, em Helsinque, durante uma conversa com um diplomata finlandês, insinuei que a China se comportava de maneira surpreendentemente responsável, já que mantinha uma posição que, embora apoiasse a Rússia em sua invasão no território ucraniano, tal apoio não era suficiente para que a ditadura de Putin vencesse o conflito. A resposta foi imediata: ao contrário, a China, segundo ele, mantinha uma posição condenável, já que poderia acabar com a guerra na Ucrânia retirando o apoio dado à Rússia. 

Na ocasião, fazia pouco que a invasão russa na Ucrânia completara três anos. Um ano depois, neste início de 2026, a guerra completa quatro anos. E a recente declaração do presidente da Finlândia durante o encontro de Davos, de que a Rússia virtualmente perdeu a guerra, é uma boa notícia em meio às indefinições que tomaram o cenário internacional nos últimos meses. 

Segundo Alexander Stubb, a autocracia russa não está prestes a perder a guerra pela falta de apoio mais decisivo da China, mas porque superestimou sua capacidade militar e supôs certa inanição europeia ante o avanço sobre território ucraniano. A comparação entre o atual conflito e as duas grandes guerras do século 20 é avassaladora. Durante os quatro anos da Primeira Guerra Mundial, o Império Russo esteve envolvido diretamente por quase três décadas. Na Segunda Guerra Mundial, a ex-URSS lutou por aproximadamente três anos e meio. Ou seja, menos tempo do que na atual guerra. A alegada superioridade bélica russa não se confirma, inclusive pelos dados de mortes de militares. Embora o governo do Kremlin não atualize regularmente as informações relativas às baixas, estima-se que mais de 1 milhão de soldados russos já morreram na Ucrânia. Principalmente em combates de trincheiras. 

Um breve olhar para a economia interna da Rússia também revela a dificuldade do país. Inflação na casa dos 30% e altas taxas de juros, de aproximadamente 16%.  E, embora a demanda por petróleo e gás continue em alta, boa parte dos países e, principalmente os europeus, já sustenta suas necessidades energéticas sem acessar a produção russa. Neste início de 2026, as receitas russas oriundas da venda de petróleo e gás chegaram ao seu nível mais baixo nos últimos muitos anos. 

Aliás, a Europa se mantém como principal adversário do ditador russo. Após um início quase vergonhoso, simbolizado pelo desprezo dedicado por Putin ao presidente francês, o velho continente se posicionou ao lado da Ucrânia, se reorganizando em torno daquilo que mais aprendeu com as guerras do início do século 20. Ou seja, negociar com ditadores é a senha histórica para ser vítima de traição. Dessa forma, mesmo com as ameaças vindas do governo dos EUA, os países europeus não só mantiveram suas fronteiras amigáveis aos refugiados ucranianos, como ampliaram seus gastos militares, redesenharam suas políticas energéticas em nome da menor dependência em relação ao petróleo e gás russos e impediram diplomaticamente que as propostas de Trump, de obter um acordo de paz entre Rússia e Ucrânia sem considerar as posições europeias, lograsse êxito.

Vale lembrar as duas justificativas russas para a invasão na Ucrânia: o direito histórico da Rússia sobre território ucraniano (argumento duvidoso e carregado de vieses) e o risco de a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) chegar às fronteiras russas. O resultado está cada vez mais perto da ridicularização da primeira justificativa e da consolidação da Otan como fundamentalmente europeia e com fronteira significativa com a Rússia. 

Dessa forma, embora a guerra ainda não tenha terminado nesse seu aniversário de quatro anos e um possível acordo ainda esteja sendo discutido em torno da cessão de territórios ucranianos para a Rússia, uma vitória de Putin é cada vez mais improvável. Ao menos nos moldes imaginados há quatro anos. E, diferentemente do que estava em pauta na minha conversa com o diplomata finlandês, o agente mais importante para esse resultado não foi a China, e, sim, a Finlândia, a Suécia, a Polónia, a Alemanha, entre tantos outros países da Europa. E, claro, a cada vez mais europeia Ucrânia.

 

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