Quem nunca implicou com estrangeirismos? Eu e Oliveira, o canalha da redação, por exemplo, detestamos a troca da simpática palavra "mascote" por "pet" — termo antes ligado, aqui, a garrafas de plástico. Pior ainda: chamar dono de animal de "tutor". Tutor tem discípulos, não companheiros. Alguém aí conhece gato disposto a ser discípulo da pessoa que o alimenta e limpa seus dejetos?
Ultrapassa em muito o bom senso, porém, a ação do procurador Cléber Eustáquio Neves, de Minas Gerais, cobrando indenização de R$ 10 milhões à TV Globo como pena pela insistência dos jornalistas em falar récorde no lugar de recorde, com a tônica para a primeira sílaba, como no original em inglês. Ele alega que, "ao difundir o erro de pronúncia em escala nacional, a requerida (emissora de TV) descumpre sua missão educativa e cultural, operando verdadeiro desserviço à padronização linguística necessária à unidade do país".
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Oliveira, disposto à conciliação, pensou ter explicação para o aparente furor gramatical, ao saber, pela repórter Melissa Duarte, que, em 2025, o zangado procurador Cléber Eustáquio recebeu do contribuinte R$ 970 mil, dos quais R$ 321 mil em penduricalhos salariais, daqueles disfarçados de "indenização", como os que o ministro Flávio Dino vetou, por considerar "afronta ao decoro das funções públicas". "É isso! Envergonhado com o que o Dino chama de 'anomalia', o procurador tenta engordar, com multas, o orçamento público!", teorizou Oliveira.
Como, em 2024, só os juízes receberam R$ 1,9 bilhão em penduricalhos como os que engordaram a poupança do procurador, se todos os membros do Judiciário decidirem compensar com multas sobre erros de gramática o que ganham acima do teto legal, vamos reduzir até o problema do deficit público, concluiu o patife.
A crença no zelo do procurador com o bem-estar da sociedade durou, porém, só até o canalha descobrir que o severo Cléber Eustáquio, depois de tentar impedir a vacinação contra o HPV, usou seu tempo bem remunerado, na pandemia da Covid, com ações na Justiça — fracassadas — contra a vacinação que combatia o morticínio pela doença. Tentou até derrubar a exigência de comprovante de imunização para estudantes no retorno às aulas presenciais na universidade.
Decepcionado, canalha da redação resolveu defender as variações linguísticas que irritam gramáticos e hipócritas disfarçados de defensores do bem público. Por sorte, encontrou um herói digno, para abraçar. Acontece que, enquanto o procurador antivacina atraía atenções com sua vistosa melancia gramatical no pescoço, outro personagem trazia razões de orgulho ao Brasil: nosso medalha de ouro nas Olimpíadas de Inverno, Lucas Pinheiro Braathen, viva ele.
"Eu não sabe", disse o herói, ao perguntarem quantas medalhas ganhou. Intrépido, sempre, esquiou no português que aprendeu com a mãe brasileira e nas músicas do país tropical ouvidas na infância; desviou-se, com malemolência tupiniquim, dos obstáculos impostos a quem cresceu em ambiente dominado por outra língua. Simpaticíssimo, até samba direitinho.
E lá foi ele: "A gente estamos"; "A gente escrever a história". E todos entenderam, ranzinzas criticaram, a maioria adorou. Como diz o veterano jornalista Paulo Sotero, "quem foi criado numa língua e tem de falar outra sem sotaque é só ator ou espião". Lucas, brasileiríssimo, mostrou ser com amor e jeitinho, não penduricalhos e obscurantismo, que o país vai bater récordes e chegar ao pódio.
