Visão do Correio

Desafios do mundo além do ponto de não retorno

A partir de agora, cada décimo de grau evitado é uma batalha existencial pela preservação do que resta de nosso futuro

Durante mais de uma década, a meta de limitar o aquecimento global a 1,5°C acima dos níveis pré-industriais funcionou não apenas como o pilar do Acordo de Paris, mas como uma trincheira psicológica para a humanidade. Era a margem de segurança que separava o mundo das consequências mais nefastas da emergência climática. Hoje, as evidências científicas consolidadas entre 2023 e o início deste 2026 atestam o que muitos temiam: essa trincheira ruiu. Ao registrar sucessivos recordes de temperatura, o planeta sinaliza que, provavelmente, passamos do ponto de não retorno. Ingressamos oficialmente em um território desconhecido, onde o clima passa a operar além do controle humano.

A gravidade desse diagnóstico não se resume à elevação gradual dos termômetros, mas ao acionamento dos chamados pontos de inflexão. Tratam-se de gatilhos a partir dos quais os grandes ecossistemas perdem sua capacidade de regeneração e entram em colapso abrupto. A natureza, que por séculos funcionou como um escudo silencioso ao absorver metade do dióxido de carbono emitido pela atividade industrial, está exausta. O fato de florestas vitais, como a Bacia do Congo e partes da própria Amazônia, estarem emitindo mais carbono do que conseguem capturar é a prova de que os "sumidouros" globais estão se transformando em fontes de poluição.

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O impacto dessa transição já transbordou das publicações acadêmicas para os balanços financeiros e para o cotidiano das populações vulneráveis — como vimos, nesta semana, em Minas Gerais, onde chuvas torrenciais destruíram partes das cidades de Juiz de Fora e Ubá, deixando pelo menos 55 mortos e milhares de desabrigados. 

É, porém, apenas o início de uma crise causada por eventos climáticos extremos, que afeta a segurança alimentar, a estabilidade das cadeias produtivas e a integridade de metrópoles costeiras ameaçadas pelo derretimento da Groenlândia e da Antártida.

Diante da falência de nosso escudo natural, a resposta política e tecnológica tem se revelado perigosamente ingênua. A aposta em soluções de geoengenharia, como o bloqueio da radiação solar ou em tecnologias caríssimas de captura de carbono, beira o pensamento mágico quando utilizada como desculpa para não cortar emissões na fonte. 

Da mesma forma, a governança internacional caminha a passos letárgicos. O reconhecimento burocrático da ultrapassagem do limite de segurança de 1,5°C acima dos níveis pré-industriais durante a COP30, realizada no ano passado em Belém, serviu de pouco alento diante da ausência de metas agressivas e vinculantes para a remoção de carbono da atmosfera.

Ter cruzado o ponto de não retorno não significa, contudo, que o jogo acabou; significa que perdemos o direito de errar. A diferença entre um mundo 1,5°C e 2°C mais quente é a diferença entre a adaptação difícil e a barbárie climática. Já não há espaço para negociações protelatórias ou defesas de interesses setoriais baseados em combustíveis fósseis. O mundo precisa encarar a transição energética não mais como uma meta para o meio do século, mas como um imperativo de sobrevivência imediata. 

É fundamental que os governos e os organismos supranacionais deixem a retórica de lado e comecem a tomar ações definitivas para resolver a questão. A partir de agora, cada décimo de grau evitado é uma batalha existencial pela preservação do que resta de nosso futuro.

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