
Cinara Lobo — servidora do Fundo Nacional de Educação, professora do mestrado profissional em políticas públicas da UFPE
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Quantas crianças estão fora da escola? Qual seu perfil socioeconômico? Apesar da importância dessas informações para universalizar o acesso à educação, o Brasil ainda não dispõe de dados precisos para respondê-las. O monitoramento atual depende da PNAD Contínua, pesquisa amostral que permite apenas recortes territoriais — regiões, estados e áreas metropolitanas —, impossibilitando análises municipais ou por grupos específicos, como indígenas, quilombolas ou pessoas com deficiência. O Censo Escolar, por sua vez, registra apenas alunos matriculados, sem identificar quem está fora da escola.
A Lei Complementar nº 220/2025, que instituiu o Sistema Nacional de Educação (SNE), busca enfrentar essa lacuna com a criação da Infraestrutura Nacional de Dados da Educação (Inde). Um dos principais avanços é o Identificador Nacional Único do Estudante (Inue), baseado no CPF, de uso obrigatório em todas as bases administrativas da União, estados e municípios. A consolidação de dados cadastrais e escolares permitirá identificar quem está dentro ou fora da escola e acompanhar individualmente as trajetórias educacionais.
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Com o Inue, o poder público terá acesso a indicadores precisos, reduzindo a dependência de pesquisas amostrais ou de censos defasados. A falta de informações nominais prejudica o planejamento, a avaliação de políticas e a alocação eficiente de recursos. Hoje, programas como Dinheiro Direto na Escola, Alimentação Escolar e Transporte Escolar utilizam o número de matrículas do Censo Escolar para distribuição financeira — e não o número real de estudantes.
Isso gera distorções orçamentárias, agravadas por inconsistências cadastrais, duplicidades e pelo fato de o Censo refletir dados do ano anterior. Essas discrepâncias afetam não só transferências federais, mas também estimativas de demanda por salas de aula, transporte e livros. No caso do Programa Nacional do Livro e do Material Didático, projeções equivocadas podem resultar em custos extras com compra e redistribuição de livros e materiais.
Outro avanço esperado é o acompanhamento da trajetória escolar. Atualmente, os censos da educação básica e superior não se comunicam de forma individualizada, impossibilitando rastrear, via CPF, se quem concluiu o ensino médio ingressou na universidade. Isso limita o monitoramento do indicador 13-A do Plano Nacional de Educação, que mede a taxa líquida de escolarização no ensino superior. O acompanhamento nominal é essencial para compreender causas do abandono e orientar políticas de permanência.
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A Inde também permitirá cruzar dados educacionais com outras bases governamentais, aprimorando políticas de inclusão, como bolsas e ações afirmativas para grupos historicamente excluídos — indígenas, quilombolas e populações do campo. Além disso, criará uma base de dados consistente para facilitar a ação complementar entre União, estados e municípios, integrando educação a programas suplementares de transporte, alimentação, saúde e assistência estudantil.
Apesar da relevância, a implantação de uma plataforma nacional de dados enfrenta desafios tecnológicos, culturais e políticos. A proteção de dados sensíveis de crianças e adolescentes, conforme a LGPD, exige protocolos rigorosos de anonimização, consentimento e governança. A integração de sistemas heterogêneos dos três níveis de governo — muitos deles obsoletos — requer investimentos robustos em infraestrutura digital, segurança da informação e capacitação de servidores. Será necessário definir padrões de interoperabilidade e oferecer apoio a municípios com menor capacidade tecnológica. Embora coordenada pelo MEC, a Inde dependerá do engajamento de estados e municípios para alimentar e auditar as informações. Diante dos desafios para implementar a plataforma, é importante que a sociedade acompanhe o tema e se mantenha atenta para garantir a efetiva aplicação da lei.
Garantir o direito à educação envolve não apenas ofertar vagas, mas assegurar que crianças e jovens frequentem a escola. Sem dados nominais, é impossível identificar motivos de evasão — financeiros, geográficos ou pedagógicos — e agir preventivamente. Diante de um orçamento educacional restrito e das desigualdades históricas, investir em governança e gestão eficiente é essencial. Saber quantos são os alunos, onde estão e quais suas condições permite planejar gastos de forma complementar entre os entes federados, reduzir desperdícios, monitorar trajetórias escolares e fortalecer a transparência na gestão educacional.
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