
Andréa Jácomo — Pediatra, professora de medicina do Ceub, coordenadora do Departamento de Pediatria Ambulatorial da Sociedade de Pediatria do DF
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Adecisão de retirar os celulares do ambiente escolar completou um ano agora em janeiro, e o que há um ano parecia uma medida radical para alguns revelou-se um dos maiores experimentos de saúde pública e pedagogia da década. Como pediatra, mãe de dois e professora universitária, vejo esse movimento não como um retrocesso tecnológico, mas como um resgate do neurodesenvolvimento e até de proteção da saúde física e mental das crianças e dos adolescentes.
A neuroplasticidade na infância e adolescência é fascinante, ela permite aprendizados rápidos, mas torna o cérebro vulnerável aos hiperestímulos das telas, desenvolvidos justamente para capturar o tempo e a atenção dos usuários de todas as idades. A literatura científica já identificou pelo menos cinco pilares em que o uso excessivo de telas causa danos profundos: privação do sono, privação social, atenção fragmentada, vício e impacto na autoestima.
A luz azul das telas inibe a melatonina com repercussão no sono. Crianças e adolescentes que madrugam nas redes sociais sofrem um deficit cognitivo comparável ao de quem está sob efeito de álcool, prejudicando a consolidação da memória. O cérebro aprende empatia e leitura de sinais não verbais através do olho no olho. Ao trocar o recreio pela tela, crianças perdem a capacidade de resolver conflitos e de ler nuances emocionais, habilidades vitais do desenvolvimento do lobo frontal.
O scroll infinito treina o cérebro para a gratificação instantânea, isso destrói a atenção sustentada, necessária para ler um livro ou resolver um problema matemático complexo. As redes sociais são projetadas com reforço positivo intermitente, e o sistema de recompensa do cérebro, ainda em desenvolvimento, é facilmente sequestrado, gerando abstinência e irritabilidade fora do mundo digital. A comparação constante com vidas filtradas e padrões irreais gera uma dismorfia e ansiedade social principalmente nas meninas. O valor do "eu" de toda uma geração de adolescentes passou a ser medido por métricas externas de aprovação, em uma fase em que a identidade ainda está sendo construída.
Desde 2023, a Unesco recomenda, conforme relatório de Monitoramento Global da Educação, a proibição do uso de celulares nas escolas, sendo que o dispositivo só deve ser permitido quando claramente apoiar os resultados de aprendizagem. A mera presença de smartphones é associada a distrações que prejudicam o desempenho acadêmico, com estudos indicando que a simples proximidade de um telefone pode tirar o foco dos alunos por até 20 minutos.
As escolas que adotaram o "celular zero" relatam uma mudança positiva. Houve uma redução nos índices de cyberbullying durante o período letivo, os alunos voltaram a brincar e, mais importante, a conversar. Pedagogicamente, os professores notam que o "tempo de reentrada" — isto é, o tempo que um aluno leva para focar após uma distração — diminuiu. O engajamento em debates em sala de aula subiu, e a escola voltou a ser um espaço de presença.
O sucesso na educação básica trouxe uma nova discussão: a proibição ou a restrição dos aparelhos celulares em universidades. Embora o acadêmico seja um adulto, a neurociência mostra que o córtex pré-frontal termina sua maturação apenas por volta dos 25 anos. Países como a França, que já proibiu celulares no ensino fundamental, começam a debater diretrizes para o ensino superior, focando em "zonas de desconexão" para aumentar a produtividade acadêmica. Na Holanda e em algumas universidades do Reino Unido, cresce o movimento de professores que proíbem laptops e celulares em aulas teóricas, baseados em estudos que comprovam que a anotação manual melhora a retenção conceitual comparada à digitação.
O caminho para o futuro passa longe da negação da tecnologia, mas a proteção do ambiente de aprendizagem torna-se necessária diante da realidade nas salas das universidades também, onde a cognição profunda tem perdido espaço para o imediatismo digital. Já compreendemos que o celular, no contexto escolar, raramente atua como ferramenta pedagógica; ele é, em essência, um intruso que sequestra a atenção e fragmenta o desenvolvimento, privando crianças e jovens da valiosa experiência de estar plenamente presente. Agora, o desafio é pensar como fazer para que os universitários também entendam o impacto do mau uso das tecnologias no processo de formação acadêmica e profissional.

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