
Paula Belmonte — deputada distrital e segunda vice-presidente da Câmara Legislativa
O BRB nasceu para ser instrumento de desenvolvimento do Distrito Federal. Um banco público criado para financiar infraestrutura, apoiar quem produz, fortalecer empresas locais e proteger o servidor. Essa sempre foi a sua missão.
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Nos últimos anos, porém, assistimos a uma mudança profunda na sua condução. Arenas, camarotes, grandes patrocínios, expansão nacional, marketing intenso. A chamada "nação rubro-negra", apresentada como estratégia de crescimento, gerou quase meio bilhão de reais em prejuízo. A Arena BRB não demonstrou retorno proporcional ao investimento realizado. Patrocínios foram firmados sem que a sociedade tivesse clareza objetiva sobre a contrapartida efetiva ao banco.
O espetáculo cresceu. E o risco também. Foram mais de R$ 30 bilhões em aquisições de crédito e negociações envolvendo o Banco Master, alterando significativamente o perfil da instituição.
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Na tribuna, fiz uma representação simbólica. Levei um banco de plástico para mostrar a fragilidade da carteira que estava sendo adquirida. Alertamos que estavam vendendo como couro algo que, pelos fundamentos apresentados, parecia plástico. Não era retórica. Era análise técnica de risco.
Muitos discordaram. Muitos acreditaram que era ousadia, modernização, protagonismo. E aqui é preciso uma reflexão honesta. Quando a corte aplaude o espetáculo, quando a sociedade se encanta com o camarote, quando empresários celebram a expansão sem questionar os fundamentos, todos nós, de alguma forma, participamos desse processo. O "pão e circo" que estudamos nos livros de história não pertence apenas ao passado. Ele se repete quando o aplauso substitui a análise.
Permanecemos mais de 11 horas reunidos com o presidente do BRB, senhor Nelson Antônio, e parlamentares. Onze horas de questionamentos técnicos. E não saímos com um número claro e consolidado sobre o prejuízo total do banco.
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O que foi apresentado é que um aporte de aproximadamente R$ 6 bilhões poderia trazer estabilidade operacional. Isso não significa que esse seja o tamanho da perda acumulada. A dimensão completa do impacto ainda não foi apresentada de forma objetiva e consolidada. E existem outras situações em apuração. Isso é grave.
Também foi informado publicamente que membros da alta administração e agentes públicos têm financiamentos em condições diferenciadas junto ao banco. A sociedade precisa conhecer os critérios adotados. Banco público não pode operar com dois pesos e duas medidas.
Chegou à Câmara o PL nº 2.175/2026, propondo socorro por meio de nove terrenos vinculados a órgãos e empresas públicas. Contudo, não foram apresentados endereços, valores, nem as autorizações formais dos conselhos e das estruturas societárias envolvidas. Estamos falando de dados básicos: localização, valor, autorização, regularidade. Sem essas informações, não há como exercer responsabilidade parlamentar.
Não se trata de ser contra o banco. Trata-se de proteger o banco. Autorizar bilhões sem os elementos mínimos seria transferir à Câmara Legislativa a responsabilidade por decisões tomadas pela direção do banco e sustentadas politicamente pelo governo do Distrito Federal.
Saí da Câmara Legislativa com tristeza. Não por disputa política. Mas porque percebi que a situação pode ser mais grave do que se imagina. E, ainda assim, nos pediram pressa.
Não sabemos o tamanho exato do problema. Não sabemos se seis bilhões serão suficientes. Não temos os dados mínimos sobre as garantias oferecidas.
A Câmara Legislativa não poderia deliberar com base em estimativas abertas ou projeções genéricas. É dever institucional exigir documentação completa, laudos técnicos, pareceres jurídicos consolidados e demonstrações financeiras auditáveis. Esse é o padrão mínimo esperado em qualquer operação dessa dimensão.
Também é necessário compreender os desdobramentos de médio e longo prazo. Um banco público fragilizado impacta crédito, servidores, fornecedores e a própria credibilidade do governo perante o mercado. A solução precisa ser estrutural, não apenas emergencial.
Entre o espetáculo e a prudência, escolhi a prudência. Entre o aplauso fácil e a responsabilidade, escolhi a responsabilidade. O BRB é patrimônio do povo do Distrito Federal. E patrimônio público não pode ser tratado como palco. Patrimônio público exige governança sólida, critérios objetivos e respeito ao interesse coletivo acima de qualquer projeto circunstancial.
Que Deus nos abençoe e nos dê lucidez para proteger o que é de todos nós.
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