
MICHEL BALTAZAR DE OLIVEIRA FILHO, doutor em ciência política e pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz; e WALESKA BARBOSA, escritora, jornalista integrante da Comissão de Jornalistas pela Igualdade Racial do DF
Quando o corpo dança, ele produz sentidos, memória e saúde. No Brasil, o samba — expressão cultural forjada na experiência negra — é também uma prática histórica de cuidado, promoção da saúde e resistência coletiva. A oficina "Samba é Saúde — entendendo e ressignificando Dona Ivone Lara na Saúde Coletiva, realizada no 14º Congresso Brasileiro de Saúde Coletiva, evidenciou algo que comunidades negras sabem há gerações: o cuidado não nasce apenas nos serviços formais. Ele floresce nas rodas, nos quintais e nos encontros onde corpo, música e afeto se entrelaçam.
A dança no samba articula dimensões físicas, emocionais e simbólicas. Do ponto de vista corporal, favorece o movimento, a circulação e o equilíbrio. Mas seus efeitos transcendem a biomecânica: dançar em roda produz pertencimento e fortalece vínculos. Ao mobilizar o corpo, o samba facilita a liberação de tensões, a regulação do humor e a redução da ansiedade.
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Essa compreensão dialoga com a Promoção da Saúde, conforme a OMS: saúde não é mera ausência de doença, mas resultado das condições sociais, culturais e afetivas que permitem viver bem. Nesse sentido, o samba opera como uma tecnologia social de saúde — ainda que historicamente invisibilizada pelas políticas públicas.
A história do samba revela seu papel como território de cuidado. No início do século 20, casas como a de Tia Ciata, no Rio de Janeiro, funcionavam como espaços de acolhimento, proteção espiritual e resistência à repressão racial. Ali, o corpo que dançava também se fortalecia e se reconhecia.
Na Bahia, o Samba de Roda em Cachoeira, protagonizado por mulheres como Dona Dalva Damiana, reafirma a prática que articula dança, religiosidade e memória comunitária. Esses espaços permitiram que comunidades negras produzissem vida em contextos de exclusão estatal e negação de direitos.
Recentemente, projetos como o Samba da Lata, em São Paulo, demonstram como o gênero segue operando como estratégia de cuidado integral. Ao atuar com pessoas em situação de rua, a música e a dança tornam-se ferramentas de reconstrução da autoestima e reinserção social, produzindo saúde onde o acesso formal é limitado.
A trajetória de Dona Ivone Lara sintetiza essa união entre samba e saúde. Mulher negra, enfermeira e compositora, ela encarnou uma concepção de cuidado que ultrapassa o hospital e se constrói na escuta e na partilha de experiências.
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Mais do que exercício físico, o samba ativa a dimensão simbólica do corpo. Ao dançar em roda, o indivíduo integra um coletivo. Esse pertencimento é um fator de proteção em saúde mental, especialmente em contextos de vulnerabilidade. Desde a origem, o samba é espaço de elaboração coletiva do sofrimento: o ritmo transforma dor em narrativa compartilhada.
As letras de samba frequentemente narram perdas e esperanças coletivas. Ao serem cantadas em coro, essas experiências deixam de ser individuais e passam a ser elaboradas coletivamente — processo alinhado ao cuidado em saúde mental comunitária baseado no vínculo e na escuta.
A saúde mental está ligada à construção da identidade. Para a população negra, submetida ao racismo estrutural, o samba opera como afirmação identitária. Ao reconhecer a potência e a criatividade negra, ele atua como contraponto à desumanização, fortalecendo a dignidade e o bem-estar psíquico.
As Políticas Nacionais de Saúde Mental e de Promoção da Saúde reconhecem que o cuidado envolve a criação de ambientes que favoreçam a autonomia. O samba dialoga diretamente com isso. Em territórios periféricos, a roda funciona como espaço terapêutico informal, onde o cuidado emerge do encontro mútuo.
Reconhecer o samba como prática de saúde é ampliar o olhar sobre o cuidado no Brasil. Significa afirmar que o bem-estar também se constrói no corpo que dança e na voz que canta. Em um país de desigualdades profundas, valorizar essas práticas é, também, um gesto de justiça social.
Mais do que música, o samba é uma linguagem de elaboração do sofrimento e uma tecnologia ancestral de cuidado. Onde o Estado falhou, a roda permaneceu sustentando vidas e afetos.
Pensar o cuidado integral a partir do samba é reconhecer que a produção de bem-estar ocorre também nos territórios culturais. Articular samba e saúde é afirmar que práticas ancestrais são tecnologias capazes de produzir dignidade. Valorizar esse espaço é um gesto político: é reafirmar que a saúde se constrói no corpo em movimento e no encontro entre pessoas.

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