
A possível revelação da identidade de Banksy, transformada em um dos assuntos mais comentados da semana nas redes sociais, diz menos sobre o artista em si do que sobre uma obsessão contemporânea: a de acreditar que todo mistério precisa ser desfeito. Penso o contrário. Nem tudo o que pode ser descoberto precisa, de fato, ser revelado. No caso de Banksy, preservar o anonimato não se trata de um capricho performático, mas parte constitutiva de sua obra, de sua linguagem e de sua crítica ao poder.
Há, claro, um interesse jornalístico em torno de qualquer apuração robusta sobre um personagem de relevância global. É legítimo. Mas é preciso separar o valor da investigação do direito automático à exposição total da vida de alguém. Banksy construiu uma trajetória singular justamente porque fez do pseudônimo não apenas uma proteção individual, mas um recurso estético e político. Ao esconder o rosto, deslocou o foco para a mensagem. Em tempos de culto à personalidade, sua escolha sempre teve algo de contracultural.
E há uma razão adicional para isso. O anonimato, nesse caso, também funciona como escudo contra retaliações de toda ordem. Banksy fez fama ao criticar elites políticas e econômicas. Não se trata de alguém que se oculta para cometer crimes em série, disseminar ódio ou sabotar a vida alheia. Trata-se de um artista que, mesmo convertido em fenômeno global, continua produzindo arte de rua, preservando a dimensão pública e provocadora de seu trabalho. Qual dano concreto estava causando a alguém ao se proteger por meio de um pseudônimo?
A tradição cultural, aliás, oferece amplo amparo a esse direito. O anonimato e o uso de nomes fictícios acompanham há séculos a literatura, a imprensa e as artes. No Dicionário Literário Brasileiro, de Raimundo de Menezes, há o registro de quase 2 mil pseudônimos de escritores. Não é um detalhe exótico. É um traço histórico. Em muitos casos, o nome inventado serviu para driblar preconceitos, escapar da censura, separar vidas públicas e privadas ou simplesmente permitir maior liberdade criativa. O pseudônimo nunca foi, por si só, uma fraude moral.
Sou favorável a ocultar a identidade sempre que não sirva de abrigo para a prática de crimes. Esse ponto é decisivo. O anonimato vale quando protege a criação, a crítica, a dissidência, a liberdade de expressão. Deixa de ser válido quando vira instrumento de destruição, intimidação ou irresponsabilidade. É por isso que não se pode confundir a opção estética e política de Banksy com a pura depredação sem propósito. Sou contra a pixação quando ela não apresenta qualquer intenção comunicativa ou artística. Da mesma forma, nas redes sociais, perfis anônimos que apenas insultam, ameaçam ou espalham desinformação não merecem a proteção romântica da clandestinidade. Liberdade não é licença para a barbárie.
Vivemos uma época em que se exige transparência absoluta até onde só deveria existir reserva legítima. Convém resistir a esse impulso. Há anonimatos abusivos, sem dúvida. Mas há também os necessários, inteligentes e até civilizatórios. O de Banksy sempre me pareceu um deles. E já que o mundo anda tão empenhado em arrancar máscaras, faço um apelo: não tentem descobrir quem é Elena Ferrante, por favor.

Opinião
Opinião
Opinião
Opinião