
NEUSA MARIA, doutoranda em saúde mental, coautora do projeto “Eu me protejo”, integra a Frente Nacional das Mulheres com Deficiência
Quando pensamos e falamos sobre mulheres é importante saber sobre quais mulheres estamos falando, não podemos generalizar, universalizar. Em Quarto de despejo, Carolina Maria de Jesus abordou de forma crua e realista a discriminação de gênero e o racismo que atravessa a vida das mulheres pretas, narrando sua própria história. Sessenta e seis anos depois muitas coisas ainda precisam mudar. Raça, classe e gênero se intercruzam e se combinam e vão gerando novas formas de opressão.
O Dia Internacional da Mulher celebra a luta por igualdade de direitos. Dessa forma, nós precisamos e devemos dar protagonismo à luta das mulheres negras. A cor é um marcador social que representa desemprego, morte e violência, ser uma mulher preta ainda hoje é ser um corpo alvo. O 8 de março é um dia muito importante para nós, mulheres, e o racismo impede que a comemoração e a importância desse dia sejam plenos. Esse impedimento vem através da invisibilidade e da dificuldade de descortinar as opressões vivenciadas pelas mulheres negras, pois precisamos de olhar interseccional sobre esse dia, já que essa luta é importante no processo de formação e integração dos nossos direitos.
Tereza de Benguela, mulher escravizada que lutou contra a escravidão, liderou por mais de duas décadas o quilombo do Quaritê. Seu nome não deve jamais ser esquecido, o seu legado nos ensina a compreender o papel das mulheres negras na construção política e social em nosso país, para que possamos refletir e assegurar que essa data seja um dia de visibilidade e celebração da vida dessas mulheres que vieram antes de nós, abrindo caminhos para que nós pudéssemos estar aqui.
No próximo 13 de maio, completam-se 138 anos da abolição da escravatura no Brasil e ainda hoje as mulheres negras têm seus corpos objetificados e perseguidos. Isso porque não foram implementadas políticas para inserir a população negra no processo pós-abolição, não foi promovido acesso à terra nem buscou-se integração. O resultado é a desigualdade e a marginalização e, principalmente, as violências que sempre atravessam os corpos das mulheres negras. Pelos dados estatísticos, não temos o que comemorar. Segundo o Mapa da violência, enquanto o feminicídio contra as mulheres brancas diminui, o feminicídio contra as mulheres negras cresce. Os números tornam patentes que a violência atravessa de forma desproporcional os corpos negros, o racismo nos diz que eles estão marcados, ainda hoje, pela violência.
Para Neusa Santos, "saber-se negra é viver a experiência de ter sido massacrada em sua identidade, confundida em suas expectativas, submetida a exigências complexas e expectativas alienadas". O 8 de março não pode ignorar as mulheres negras ao universalizar a perspectiva. A questão que atravessa a nossa sociedade não pode ser somente gênero. Nós precisamos protagonizar as mulheres negras, fortalecer suas narrativas.
No 8 de março, mulheres do mundo todo se unem para fortalecer as lutas. Por que não fortalecer a batalha de mulheres negras que até hoje lutam para sobreviver? Nessa data, temos que celebrar Sueli Carneiro, Lélia Gonzales, Neusa Santos, Carolina Maria de Jesus, entre outras.
Combatendo o epistemicídio, estudando teóricas negras nas universidades, afinal como dizia Elza Soares, "precisamos ter consciência de que muitas mulheres morreram para que pudéssemos ficar vivas, termos liberdades de escolher e fazer o que quisermos." Estudar e conhecer a vida dessas mulheres é uma forma de imortalizá-las. Eu escolho ser resistência para que a questão racial não seja tratada como secundária e a força da nossa ancestralidade e luta sejam respeitada, jogando luz para a urgente necessidade da sociedade se unir pelo fim da violência e garantia de vida das mulheres negras. Afinal, 60 milhões de mulheres no Brasil se autodeclaram negras. Não podemos esperar mais três décadas para que o IDH da população negra se iguale ao IDH da população branca.
Viemos de uma luta ancestral pela liberdade, pois como diz Conceição Evaristo: "O imaginário brasileiro pelo racismo não concebe reconhecer que as mulheres negras são intelectuais" e, por isso, nos silencia. Nós, mulheres negras, crescemos com a ideia de que temos que agradar e, por isso, nos calamos. Usemos a nossa voz para dizer o que se cala, para comemorar o nosso dia, porque sim ele também é nosso. Para gritar que não seremos silenciadas, afinal. Portanto, como diz Sueli Carneiro: "Vai ter luta sim!"

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